Barbárie no Egito

A célebre expressão de Nelson Rodrigues - "arrancos de cachorro atropelado" - parece perfeita para descrever a ferocidade com que as forças de repressão egípcias tentaram aplastar não apenas o clamor popular pelo fim imediato da tirania de 30 anos de Hosni Mubarak, mas também a cobertura, pela imprensa estrangeira, desse movimento sem precedentes no país e de repercussões internacionais imprevisíveis. Os espasmos de agonia da ditadura deixaram uma profusão de mortos e feridos no centro do Cairo, quando policiais travestidos de manifestantes civis favoráveis a Mubarak e hordas de delinquentes por eles recrutados investiram contra as multidões que demandavam acerbamente, mas pacificamente, o advento da democracia.

, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2011 | 00h00

Ao mesmo tempo, a selvageria dos "torturadores agindo nas ruas", nas palavras de um horrorizado militante egípcio dos direitos humanos, abateu-se sobre os jornalistas vindos de todas as partes para acompanhar o maior sismo já experimentado pelo mundo árabe-muçulmano desde os protestos que, ao cabo de oito meses, destronaram o xá do Irã em 1979. Com a diferença de que o abalo de agora, na esteira da recente revolta que derrubou o autocrata tunisino Zine El Abidine Ben Ali, não foi insuflado por qualquer organização política ou civil nem por um líder religioso no exílio, como o carismático aiatolá xiita Ruhollah Khomeini. O desespero do sistema de poder cevado por Mubarak levou os seus gorilas a destroçar até mesmo regras elementares de convivência diplomática, como a tolerância em relação à atividade das equipes de mídia admitidas no país.

Governos alarmados com as consequências desse trabalho - a sublevação no Egito se alastrou em ampla medida graças às imagens da rede Al Jazeera, do Catar, captadas no país e reproduzidas sem cessar na internet - fazem o de costume: tiram sinais do ar, fecham sucursais de emissoras e periódicos do exterior, confiscam equipamentos e cassam credenciais. Mas não espancam, sequestram e encapuzam jornalistas antes de expulsá-los sumariamente, como no caso da dupla de enviados especiais da EBC, de Brasília. Pior foi a sina de um desaparecido repórter da televisão sueca, afinal encontrado num hospital depois de ter sido esfaqueado. "Barbárie", resumiu com franqueza incomum no seu ramo o embaixador brasileiro no Cairo, Cesário Melantonio, há 40 anos na carreira.

Como a quase totalidade dos observadores, ele acredita que o regime de Mubarak "está moribundo". Antes ainda do "Dia da Partida" - ontem, quando expiraria o prazo estabelecido pela oposição para a renúncia do tirano -, analistas familiarizados com a política egípcia, como o libanês Fawaz Gerges, professor de relações internacionais na London School of Economics, davam como certo que o poder já passou de Mubarak para o seu mais próximo colaborador, Omar Suleiman, chefe dos serviços secretos egípcios e interlocutor habitual dos Estados Unidos. Nomeado dias atrás vice-presidente, na tardia reorganização do governo, o ex-general de 72 anos, treinado na antiga União Soviética (assim como o próprio Mubarak e a maioria da velha elite militar egípcia), é o nome preferido por Washington para chefiar um governo de transição no Cairo.

O New York Times revelou que altos funcionários americanos vêm negociando com autoridades egípcias um esquema para a saída imediata de Mubarak. O governo interino - na realidade um triunvirato encabeçado por Suleiman e integrado pelo ministro da Defesa, marechal Mohamed Tantawi, e o chefe das Forças Armadas, general Sami Enan - daria início a uma reforma constitucional, que desembocaria em eleições livres marcadas para setembro. O processo se faria mediante negociações com um amplo leque de forças oposicionistas, entre elas a banida (e temida) Irmandade Muçulmana. O movimento, que diz não querer um candidato presidencial próprio, mas uma figura de consenso, prega "um Estado civil democrático, baseado em princípios islâmicos".

Falta convencer o Exército a trocar sua tutela de 60 anos sobre o Estado autoritário pela tutela sobre o processo de democratização que se seguirá à queda de Mubarak, em cumprimento da vontade popular.

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