BC sob pressão política

Sob forte pressão para baixar os juros, o Comitê de Política Monetária (Copom) anunciará no começo da noite se já está preparado para afrouxar a política anti-inflacionária e, se a resposta for positiva, se continua empenhado em conduzir a inflação à meta de 4,5% até o fim de 2012. Os preços voltaram a subir, depois de um recuo no meio do ano. Além disso, o aumento acumulado em 12 meses continua bem acima da meta oficial e fora da margem de tolerância. Esse é o aspecto técnico do problema. Se os juros caírem antes da hora, a correção do erro poderá ser muito custosa. Mas há também um aspecto político. Diante das evidentes pressões do Executivo, são inevitáveis as dúvidas sobre quem manda no Banco Central (BC): resta algo, afinal, da autonomia de fato exercida até 2010?

, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2011 | 00h00

As duas questões são delicadas e tornam-se especialmente importantes neste momento. Há graves incertezas no front econômico, por causa da estagnação e dos problemas fiscais nos Estados Unidos, na Europa e no Japão. Se o banco central americano jogar mais dólares no mercado, poderá haver mais especulação no mercado de matérias-primas e novas altas de preços, pelo menos enquanto a demanda chinesa continuar aquecida. É difícil, neste momento, avaliar com alguma segurança os próximos impactos da crise internacional na economia brasileira.

Também há fatores internos de insegurança, tanto econômicos quanto políticos. Apesar da anunciada intenção de economizar R$ 10 bilhões adicionais neste ano, o Executivo continua sujeito a pressões de um Congresso gastador e ficará em posição mais vulnerável em 2012, por causa das eleições municipais.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, tem chamado a atenção para sinais de esfriamento da economia brasileira. São comprovações, segundo ele, do acerto da política oficial. Com a redução do crescimento para algo entre 4% e 4,5% neste ano, o risco de inflação diminui e criam-se condições para a queda dos juros básicos. O quadro se completa com o plano de contenção do aumento de gastos.

Mas a cena econômica é mais complexa e menos tranquilizadora do que indica o ministro. A produção industrial de fato perde impulso, embora continue em expansão. Em julho, o Indicador de Nível de Atividade (INA) da indústria paulista foi 0,3%, maior do que em junho, descontados os fatores sazonais. Foi a menor variação para um mês de julho desde 2006, como observou o diretor do Departamento de Economia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, Paulo Francini. Mas seria preciso acentuar também outro dado: a ocupação da capacidade instalada subiu de 82,2% para 82,7% e se manteve elevada.

Além disso, a demanda interna continua forte e os indicadores de consumo permanecem muito bons. No primeiro semestre as vendas no varejo foram 9,2% maiores que as de um ano antes. O poder de compra tem sido sustentado tanto pelo crédito quanto pelos aumentos salariais. Mais de 80% dos acordos concluídos pelos sindicatos na primeira metade do ano proporcionaram ajustes acima da inflação. Até o mês passado os empréstimos continuaram em expansão, embora em ritmo mais moderado.

Não se pode avaliar corretamente a evolução da economia nacional sem levar em conta esse contraste: a demanda permanece vigorosa, enquanto a produção industrial perde impulso. A demanda interna será ainda alimentada pela expansão do gasto público neste e no próximo ano, porque a intenção do governo, segundo o ministro da Fazenda, é apenas limitar o aumento do custeio, sem impedir, no entanto, a expansão da despesa total.

A breve deflação do meio do ano acabou. O Índice Geral de Preços de Mercado (IGP-M) subiu 0,44% em agosto, puxado, de novo, pelos preços por atacado. Os preços das matérias-primas brutas aumentaram 1,51%. O IGP-M, com alta de 8% em 12 meses, deverá realimentar os aluguéis e outros preços indexados. O IPCA-15, versão do índice oficial medido entre 14 de julho e 12 de agosto, subiu 0,27%, o dobro da taxa do mês anterior. O acumulado em 12 meses chegou a 7,1%, muito acima do limite de tolerância, de 6,5%. Será hora de afrouxar a política de juros?

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