Bendita seca!

Em razão da crise hídrica, a prefeitura de Campinas será a primeira do País a utilizar água de reúso no abastecimento. As estações de tratamento de esgoto adicionarão 870 m³/s de água aos Rios Capivari e Atibaia. Novas tecnologias, como membranas ultrafiltrantes, eliminam o uso de produtos químicos e garantem água com alto grau de pureza nas estações produtoras de água de reúso.

Evaristo Eduardo de Miranda, O Estado de S.Paulo

18 Novembro 2014 | 02h04

A seca e as inovações tecnológicas ajudam a ampliar a cultura do reúso. Empresas, shoppings e pequenas indústrias instalaram estações, de poucos metros quadrados, para tratar o próprio esgoto e produzir a água de reúso. O potencial é enorme e pede investimentos: só se reutilizam 4% do esgoto tratado. O governo federal precisa isentar da Cofins e do PIS as empresas de saneamento. Isso as ajudaria em seus investimentos. Muitos municípios no Brasil seguiriam o exemplo de Campinas, que procede como na África do Sul, na Austrália, nos EUA, em Cingapura e na Namíbia.

A crise hídrica provocou avanços inimagináveis nos hábitos de consumo e na gestão da água, com uso de tecnologias que, de outra forma, teriam demorado a ser adotadas. No Rio de Janeiro virou lei: todos os condomínios novos, residenciais ou comerciais, são obrigados a ter sistemas de medição individual de consumo de água. O sistema traz uma economia na conta de água de 40% a 50%. E também na energia elétrica: as bombas trabalham bem menos. O avanço seria maior se houvesse distribuição gratuita de medidores individuais, como na Califórnia.

Redutores de vazão em torneiras e chuveiros estão sendo instalados em casas, escolas, clubes, restaurantes, bebedouros, etc. Nos banheiros as caixas acopladas são mais econômicas do que as de válvula. Por um custo pequeno dá para colocar dispositivos de duplo acionamento ou temporizadores para regular a vazão na descarga de parede.

Além de fechar a torneira ao escovar os dentes, de reduzir o tempo no chuveiro e fechá-lo ao ensaboar-se, a regra é só ligar a máquina de lavar com capacidade total. Restaurantes eliminaram a lavagem com o uso de copos, pratos e até talheres descartáveis. E escolhem material de qualidade adequada para enviar à reciclagem.

Aumentou a compra de mantas para cobrir piscinas e reduzir a perda d'água por evaporação. Alguns condomínios fecharam piscinas e adotaram rodízio voluntário. A economia de água é premiada em São Paulo: a redução de 20% se traduz por 30% a menos na conta e o bônus é progressivo a partir de uma economia de 10%.

Cresceu o mercado de lavagem a seco de carros com produtos químicos. Postos são obrigados a usar fontes alternativas de água para lavagem e estão impedidos de empregar água da rede pública. Que diferença em relação aos anos 1990, quando um lava-rápido precisou entrar na Justiça pelo direito de usar água da chuva. Agora já existe até um mercado de kits para captação dos telhados, com filtragem e recirculação da água pós-lavagem.

A utilização da água da chuva em instalações sanitárias e irrigação de jardins está em alta. Muita gente está instalando cisternas em casas, indústrias e comércios. Produtores de flores e plantas na região de Holambra têm sofisticados sistemas de recirculação do vapor usados na climatização em estufas e de captação de água da chuva.

Os consumidores estão mais atentos para detectar vazamentos em tubulações, caixas d'água e reservatórios. Qualquer abuso ou vazamento é rapidamente denunciado. Nunca a população fiscalizou e denunciou tanto.

Educação no uso da água implica punir desperdícios. Novas leis municipais preveem multas, corte de água e obrigam o infrator a fazer curso sobre uso racional da água. Adesivos e mensagens educativas lembram a todos a necessidade do bom uso da água, em elevadores, entradas de prédios, restaurantes, etc.

Em São Paulo adiantaram-se medidas previstas para aumentar a captação e armazenagem de água. Prefeituras implantaram novas captações em córregos e rios, até então não utilizados, e constroem reservatórios, interligados por adutoras a outros já existentes em área rural. Eles abastecerão cidades de porte médio por um a três meses, em tempo de seca.

Com a crise hídrica acelerou-se a construção de novos sistemas, como o S. Lourenço, para abastecer a capital. A modernização de equipamentos de filtragem, o aumento da capacidade de tratamento e as estações elevatórias ampliarão a vazão e o atendimento na interligação de reservatórios, como no Sistema Guarapiranga e Rio Grande. Projetos de novas adutoras para transpor bacias entre municípios e no próprio município saíram, enfim, do papel, como o do Rio Jaguari para Campinas.

A crise levou à água subterrânea. A Prefeitura de São Paulo abriu licitação para construir 32 poços artesianos em todas as subprefeituras. Empresas de saneamento isentam da taxa de esgoto quem captar em poço artesiano. Na Região Metropolitana de São Paulo cerca de 400 poços foram construídos em 2014, juntando-se a 2.082 poços outorgados na capital. Atestadamente, alguns recuperam parte da água perdida nas tubulações da Sabesp. Com a crise, os programas de redução de perdas de água ganharam força. As companhias de saneamento contrataram diagnósticos para apontar causas de perdas e buscam implantar soluções, nos limites de seus recursos.

A seca trouxe a oportunidade para prefeituras e moradores removerem toneladas de lixo e entulho acumulados em rios e represas. E trouxe à luz a urgência de mudanças de comportamento dos cidadãos. Parte do comportamento responsável para com a água será abandonada com a volta das chuvas, é verdade. Mas os novos sistemas de uso sustentável da água não serão removidos e as novas tecnologias não têm caminho de volta para as gavetas. Fica para educadores e ambientalistas a sugestão de aproveitar o momento para consolidar o avanço criado pela necessidade.

*Evaristo Eduardo de Miranda é pesquisador e coordenador do grupo de Inteligência Territorial Estratégica da Embrapa 

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