Bin Laden e o martírio

Morto Osama bin Laden, importa dissecar a lógica do martírio que orientou os seus atos. O termo vem do grego e significa "testemunho". Ele se liga às técnicas para encontrar a verdade em processos jurídicos.

Roberto Romano, O Estado de S.Paulo

22 Maio 2011 | 00h00

O testemunho obrigatório e sob tortura surge na democrática Atenas, cujos cidadãos não poderiam ser maltratados fisicamente para confessar malfeitos. O tormento sobrava para os escravos e, em alguns casos, para os estrangeiros. O escravo que mentia não estava submetido, como o seu proprietário, às penalidades contra o perjúrio.

Tortura e testemunho ligam-se, por metáfora, à pedra usada pelos ourives para testar e aprimorar peças de ouro. As sevícias teriam a virtude de provar a fala verdadeira. Tratava-se, literalmente, de conseguir a justiça com a mão do gato: as partes, nos tribunais, eram demasiado nobres para serem estraçalhadas em processos polêmicos. A decisão judicial vinha com os martírios, que, não raro, conduziam os escravos à morte horripilante.

Na vida cristã foi preservada a significação de sofrimento no testemunho. Nos Atos dos Apóstolos (1, 8) os cristãos recebem o título de mártires que deveriam dizer a verdade trazida pelo Deus morto e ressuscitado. O testemunho, no caso, não requer necessariamente a morte e o sofrimento do fiel. Quando, no entanto, chegam o trespasso e a dor, eles evidenciam a verdade evangélica. Na Igreja primitiva o martírio, gerador de novos adeptos, recebeu sua fórmula em Tertuliano: "O sangue das testemunhas é semente de cristãos" (Apologético, 50).

No Islã, o martírio é entendido no contexto da guerra santa. Esta, por sua vez, se liga à doutrina que ensina a distinguir o bem e o mal segundo a luz divina, cuja mensagem foi transmitida pela profecia autorizada. O martírio deve ser percebido na submissão à vontade suprema de Alá. Quem morre para manter e ampliar a fé, com sofrimento na jihad, sobe ao paraíso.

No judaísmo não existe a busca do martírio como instrumento de propagação da fé. Nele, o povo de Israel deve buscar, sobretudo, a vida. E, no entanto, o valor dos mártires é imenso na História e na cultura judaicas.

Spinoza lembrou a Albert Burgh, jovem e fanático, convertido ao catolicismo, que não apenas na Igreja cristã os martírios chegam aos milhares. Mesmo os fariseus, diz o filósofo, contam em sua grei com miríades de testemunhas. Na carta em que se defende de ser aliado do demônio, Spinoza toca na essência das relações entre a fé e o saber científico. Burgh lhe perguntara, visto que nosso pensador não confiava nos mártires como caminho para chegar ao verdadeiro, como distinguir a péssima da melhor filosofia. Resposta: "Não encontrei a melhor, mas a verdadeira. E você me pergunta como o sei. De maneira igual à usada por você para saber que os três ângulos de um triângulo igualam dois retos. E ninguém dirá que isso não basta".

Quem acredita no martírio o faz por ouvir dizer, a maneira mais baixa de se atingir o conhecimento. Temos aí a diferença entre o martírio e a procura da verdade científica. Esta última não requer demônios, paraísos, recompensas, torturas, guerras. "A verdade é índice de si mesma, e do falso": tal é o núcleo spinozano do pensamento moderno, que recusa, como prova, o sangue derramado. No caso de Galileu, o martírio não foi o alvo, pois as suas provas são estranhas às formas geométricas e físicas. "Não preciso de tal hipótese", disse um dia Laplace a Napoleão, que lhe perguntou sobre o divino em seu sistema astronômico.

O marxismo, na sua origem, exacerbou o ideal científico. Mas seguiu rumo inverso ao criar mitologias e místicas cuja base principal se encontrava no martírio. A verdade emanaria das oniscientes direções, o Comitê Central. Este, por sua vez, tinha profetas e sacerdotes em Lenin e Stalin. A ciência foi abandonada em favor do "materialismo histórico e dialético". E Lyssenko acelerou a ruína da União Soviética com uma "genética" cujos fundamentos eram ideológicos, ou religiosos. Outra forma de martírio era praticada nos campos de concentração e nas celas da KGB. Tudo para testemunhar a glória do Estado proletário.

Divinizados os dirigentes - "O Sol é mais luminoso que as estrelas e a Lua, mas teu espírito, Stalin, é mais luminoso do que o Sol!", entoava Zozulia Tchachikov em 1937 -, os militantes transformaram-se em mártires da "causa". A história de Fan Chji Min é exemplar. Membro do Exército Vermelho chinês morto pelos nacionalistas, ele tornou possível que "nas posições de combate da frente de libertação milhares de Fan Chji Min legendários realizem milagres de valor e intrepidez". Tal hagiografia circulou na esquerda. O capitalismo de Estado que vigora hoje na China, e não hesita em transformar pessoas em escravas passíveis de serem torturadas, mostra o terrível delírio que gerou os Fan Chji Min.

O sangue dos mártires é semente. Nos partidos totalitários e terroristas do século 21, e até em Estados orgulhosos de sua democracia, o culto dos heróis justiceiros hipnotiza os incautos. O inimigo mais impiedoso é o educado para o martírio: ele decreta a morte alheia em nome da História ou do ser divino. O sangue, diz com a lucidez nele costumeira Friedrich Nietzsche, "é a pior testemunha da verdade, ele envenena a doutrina mais pura e a transforma em loucura, um ódio no fundo dos corações".

Enquanto existirem mártires, persistirão zonas de ódio nas sociedades. Em vez de caluniar a ciência, nela podemos reunir sinais de saúde espiritual, contra a loucura do fanatismo. O uso da tecnologia como arma vem mais das religiões, que a empregam para conquistar novos fiéis, novos mártires (agora mesmo, no Irã), ou das crenças ideológicas e políticas.

No Brasil, podemos escapar do martírio em massa. Mas o tempo está se esgotando.

FILÓSOFO, PROFESSOR DE ÉTICA E FILOSOFIA NA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS (UNICAMP), É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE ''O CALDEIRÃO DE MEDEIA'' (PERSPECTIVA)

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