BIS recomenda desaquecimento

Os emergentes têm sido os principais motores da economia mundial desde o agravamento da crise, no segundo semestre de 2008. Sua produção cresceu 7,3% no ano passado, enquanto a dos países desenvolvidos só aumentou 3%. Continuam liderando a recuperação global e transmitindo vigor a outros mercados por meio de suas importações, mas seu dinamismo é também apontado como fonte de problemas. Economias superaquecidas fazem subir os preços das matérias-primas e criam pressões inflacionárias. Por isso, é preciso elevar os juros nessas economias e reduzir seu aquecimento, recomenda o Banco de Compensações Internacionais, de Basileia, apelidado de Banco Central dos Bancos Centrais e também conhecido pela sigla BIS (Bank for International Settlements). Há algo de verdade no diagnóstico e uma pitada de sensatez na prescrição, mas os fatos são mais complicados e é preciso buscar soluções políticas bem mais amplas.

, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2011 | 00h00

O crescimento dos emergentes, principalmente da China, tem pressionado os preços de produtos básicos. A economia chinesa é uma devoradora gigantesca de matérias-primas e bens intermediários de todos os tipos. Outros países, alguns emergentes, outros em estágios anteriores de desenvolvimento, têm também crescido velozmente. Graças a essa transformação, centenas de milhões de pessoas passaram a consumir alimentos e outros bens essenciais em volumes inimagináveis até há pouco tempo. Além disso, vários desses países, principalmente da Ásia, necessitam de insumos também para fabricar produtos destinados à exportação.

Mas outros fatores também têm contribuído para os aumentos de preços de matérias-primas e bens intermediários. Houve choques de oferta de produtos agrícolas, nos últimos anos, por causa de inundações, secas e incêndios de lavouras. Outro dado importante é o excesso de dinheiro em circulação nos mercados. Parte desse dinheiro tem sido aplicada em produtos básicos, convertidos há alguns anos em importantes sucedâneos dos ativos financeiros. A política monetária dos Estados Unidos é uma das principais fontes de alimentação desse jogo. Na rodada atual de compra de títulos públicos para geração de liquidez, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, programou injetar US$ 600 bilhões nos mercados. A tarefa será concluída, segundo o plano, até o fim deste semestre.

Antes do BIS, o Fundo Monetário Internacional (FMI) havia apontado sinais de superaquecimento em economias emergentes, incluídas as do Brasil e de outros latino-americanos. Também havia recomendado medidas para contenção da demanda e neutralização das pressões inflacionárias.

Mas a grande pressão de demanda nos mercados internacionais provém da Ásia. Nesta nova etapa da crise mundial, a China assume um novo papel de vilã. Já era criticada por sua política de subvalorização do yuan. Agora é apontada também como fonte de pressão inflacionária. O aperto monetário, já iniciado pelas autoridades chinesas, pode atenuar o problema, contendo a demanda. Mas o desacerto cambial só será resolvido, ou amenizado, com uma flutuação mais livre da moeda chinesa. A China parece, até agora, pouco disposta a fazer essa concessão.

A situação é um tanto paradoxal. As economias do mundo rico ainda precisam do dinamismo dos emergentes, liderados pela China. Sem a demanda desses países, sua crise seria provavelmente mais séria. Mas agora rejeitam as pressões inflacionárias causadas por aquele mesmo dinamismo. Enquanto olham para fora, em busca de culpados, mostram-se incapazes de resolver os problemas criados por sua imprudência financeira.

A colaboração da China - e talvez de outros emergentes - é essencial, de fato, para o reequilíbrio da economia global. Mas a solução só será completa com a cooperação de todos os grupos de países. O desarranjo monetário no mundo rico e o crescente superávit comercial da Alemanha também são componentes do problema.

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