Boa notícia

CARLOS ALBERTO DI FRANCO*, O Estado de S. Paulo

11 Abril 2016 | 03h00

Frequentemente a informação veiculada na mídia provoca um travo na alma. Corrupção, violência, crise, trânsito caótico e péssima qualidade da educação e da saúde, pautas recorrentes nos cadernos de cidade, compõem um mosaico com pouca luz e muitas sombras. A sociedade desenhada no noticiário parece refém do vírus da morbidez. Crimes, aberrações e desvios de conduta desfilam na passarela da imprensa. A notícia positiva, tão verdadeira quanto a informação negativa, é uma surpresa, quase um fato inusitado.

Ações, inúmeras, algumas quase anônimas e cimentadas na força da solidariedade, comprovam o papel redentor da educação, da arte, da música. Basta pensar no magnífico trabalho de resgate social desenvolvido pela Fundação Bachiana, uma iniciativa do maestro João Carlos Martins. Favelas com frequência ocupam a crônica policial. A música, no entanto, transporta o universo das periferias marginalizadas para as páginas de cultura. Jovens abandonados pelos governos e teoricamente predestinados a uma vida de crime, drogas, prostituição, miséria e dor encontram na música o passaporte para o resgate da dignidade e da esperança.

Jornais, frequentemente dominados pelo noticiário enfadonho do País oficial e pautados pela síndrome do negativismo, não têm “olhos de ver”. Iniciativas que mereceriam manchetes sucumbem à força do declaratório. Reportagens brilhantes, iluminadoras de iniciativas que constroem o Brasil real, morrem na burocracia de um jornalismo que se distancia da vida e, consequentemente, dos seus leitores. O recurso ao negativismo sistemático esconde uma tentativa de ocultar algo que nos incomoda: nossa enorme incapacidade de flagrar a grandeza do cotidiano.

“Quando nada acontece”, dizia Guimarães Rosa, “há um milagre que não estamos vendo.” O jornalista de talento sabe descobrir a grande matéria que se esconde no aparente lusco-fusco do dia a dia. A mídia, argumentam os aguerridos defensores do jornalismo realidade, retrata a vida como ela é. Teria, contudo, o cotidiano do brasileiro médio nada além de tamanhas e tão frequentes manifestações de violência e de tristeza? Penso que não. Há uma evidente compulsão a pinçar os aspectos negativos da realidade.

Por mais que a sociedade tenha mudado, tenho a certeza de que o pretenso realismo que se alardeia para sustentar o excesso de violência e mau gosto que diariamente desaba sobre leitores e telespectadores não retrata a realidade vivida pela maioria esmagadora da população. Na verdade, ainda há muita gente que cultua os valores éticos, os quais dão sentido e dignidade ao ato de viver. A grandeza humana bem vale uma matéria. Podemos todos – jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, enfim – dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz.

Precisamos, ademais, valorizar editorial e informativamente inúmeras iniciativas que tentam construir avenidas ou vielas de paz nas cidades sem alma. É preciso investir numa agenda positiva. A bandeira a meio mastro sinalizando a violência sem-fim não pode ocultar o esforço de entidades, universidades e pessoas isoladas que, diariamente, se empenham na recuperação de valores fundamentais: o humanismo, o respeito à vida, a solidariedade. São pautas magníficas. Embriões de grandes reportagens. 

Denunciar o avanço da violência e a falência do Estado no combate a ela é um dever ético. Não menos ético, porém, é iluminar a cena de ações construtivas, muitas vezes desconhecidas do grande público, que, sem alarde ou pirotecnias do marketing, colaboram, e muito, na construção da cidadania.

A preocupação social, felizmente, já mobiliza muita gente. Multiplicam-se iniciativas sérias de promoção humana. Conheço de perto uma obra notável. Sob inspiração da prelazia do Opus Dei, foi fundado em 1985 o Centro Educacional Assistencial Profissionalizante (http://ceappedreira.org.br). Nasceu de um ideal de diversos profissionais e estudantes preocupados em organizar um trabalho social sério na zona sul de São Paulo. Após estudo da situação e das suas necessidades, verificou-se que, no bairro de Pedreira, a 30 km do centro da capital paulista, jovens de 10 a 18 anos se encontravam em situação de grave risco social, expostos a drogas, marginalidade e criminalidade. Implementou-se, então, uma escola técnica para jovens carentes que dispusesse de tudo o que uma escola de “primeira linha” pode oferecer.

O Ceap – como é carinhosamente conhecido – atende atualmente mais de 600 alunos e conta com aproximadamente 10 mil m² de área construída, distribuídos num terreno de 23 mil m². Oferece cursos livres de Eletricidade Residencial e Industrial, Auxiliar de Informática e Informática Aplicada, e cursos técnicos de Administração, Curso Técnico de Redes de Computador e Telecomunicações, com duração de um a dois anos.

Muitos dos alunos passam a ser a principal fonte de renda em sua família, o que constitui um impacto social relevante. Além disso, deixam a escola com a clara consciência da necessidade de estudar com afinco e dedicação. Com essa mentalidade, é comum que muitos dos alunos do Ceap cheguem ao nível universitário, uma meta quase impensável no início de seus estudos, em razão de suas difíceis condições de vida. Mudar é possível.

Por isso, os esforços do Ceap e de tantas pessoas engajadas no mutirão da inclusão merecem registro jornalístico. Não resgatarão, por óbvio, nossa imensa fatura social, mas sinalizam uma atitude importante: olhar a pobreza não com o distanciamento de uma pesquisa acadêmica, mas com a fisgada de quem se sabe parte do problema e, Deus queira, parte da solução.

Iluminar boas iniciativas e construir uma agenda positiva é um modo de construir a paz.

*CARLOS ALBERTO DI FRANCO É JORNALISTA E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR

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