Bob Dylan e a Constituição brasileira

Que os civilizados e pinaculares princípios de humanidade orientem as medidas contra a crise

Carlos Ayres Britto, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2016 | 04h00

Justa é a concessão do Prêmio Nobel de Literatura a Bob Dylan. Isso a partir da fidedignidade da decisão ao significado mesmo do termo “literatura”. Que traduz a arte de se expressar por letras ou signos linguísticos. Equivale a dizer: literatura e arte de se exprimir por letras de um dado vernáculo mantêm entre si uma relação necessária. Relação de olho e pálpebra ou de tímpano e audição. É só consultar “O Aurélio” para ver que literato é sinônimo de escritor. De homem de letras. De pessoa que faz da sua língua-pátria um veículo de comunicação intersubjetiva tão facilitada quanto clara e sedutora. Atraente. Que não é senão um modo estético-original de se comunicar.

Ora, Bob Dylan costuma fazer as letras de suas próprias canções. É um letrista, portanto. Alguém reconhecidamente identificado com um tipo vocabular de comunicação que é meio de vida e razão de viver. O ar profissional, consciencial e ainda espiritual que ele respira. Por isso que letrista inatamente afeiçoado ao ritmo, à pulsão, à plasticidade, às pausas, à sonoridade, aos links e possibilidades semânticas dos termos e fraseados que adiciona à sua comunicação propriamente melódica. Fazendo-o por um modo inovadoramente poético. Poético na forma e de um conteúdo otimizadamente conciliador de emoções e ideias. Emoções tão profundas quanto abertas, ideias tão arejadas quanto corajosas, pois somente assim, pela mais entranhada simbiose entre quociente emocional (QE) e quociente intelectual (QI), é que letra de música se pode elevar à dimensão da poesia. À arte da poesia, que passa a se colocar a serviço da arte da música. Ou vice-versa: a arte da música a se colocar a serviço da arte da poesia, quando a letra que se faz poema vem antes da composição musical. 

Não se esgota, porém, nessa opinião do justo prêmio o ato da Academia Sueca. Ele também resgata o correto juízo de que literatura e poesia não são como água e óleo. São, isso sim, gênero e espécie, respectivamente. Continente e conteúdo, se se prefere dizer. A literatura a abarcar a poesia, então, assim como abarca o romance, o conto e a crônica, pouco importando se os respectivos conteúdos sejam obra de realidade ou de ficção. Ou de ficção e realidade, mescladamente. Tanto quanto é possível categorizar como literatura toda empreitada biográfica. Apenas com a peculiaridade de que as obras de cunho biográfico ainda ocupam o espaço das pesquisas e descrições historiográficas. Já no que toca aos artigos, reportagens e editoriais jornalísticos, bem, é do meu pensar constituírem eles uma realidade à parte. A realidade em si do jornalismo, tão distinta da literatura quanto diferentes são os escritos dos teóricos e dos profissionais do Direito. Cada qual dessas duas categorias com o seu preciso e elegante estilo redacional. 

Sigo em frente, agora para dizer que todo poeta verdadeiro, assim como todo artista de fato, substitui a memória pela imaginação (“Imaginação é a memória que enlouqueceu”, pontuou Mário Quintana). Faz a intuição ou percepção instantânea das coisas anteceder toda reflexão. Compreende primeiro e só depois é que busca entender. Autoconhece-se, antes de conhecer. Quase sempre chega às grandes sínteses sem precisar de nenhuma análise. Pega as coisas no ar, e não no tranco. Labora muito mais no campo da formação do que da informação. Além de personalizar tudo; isto é, o artista não coisifica ninguém e ainda personaliza as coisas. Por isso que humanista. Com esta superlativa diferença quanto aos poetas: eles personalizam até as palavras. Como ninguém o faz.

Sabem que o sangue da vida também flui pelas veias de cada vocábulo. E pelos personalizados vocábulos é que mais recebem da Existência recados estalando de novo. O desconhecido a ter gosto em visitá-los, feito condecoração por intuírem e praticarem a máxima de que as palavras são dados elementares do ser humano. Fazem parte da compostura neural do Homo sapiens. Acessam-no sem que ele, ser afetivo-racional e ainda anímico, precise fazer nada diferente daquela postura existencial da mais entranhada combinação entre QE e QI, nessa ordem (“Primeiro, estranha-se; depois, entranha-se”, na exata percepção de Fernando Pessoa).

Novo passo adiante: é por efeito desse estado de alumbramento (Bandeira) com a silhueta e a aura de cada vocábulo que letristas-poetas como Bob Dylan combinam por um modo tão intenso e harmonioso emoção e razão, que frequentemente saltam para o topo da sua consciência. Ali onde a Vida coreografa a dança da sua própria unidade, diria a poeta Elvira de Macedo Nascimento. Ali onde Cecília Meirelles foi buscar inspiração para homenagear a língua luso-brasileira com estes versos (cito de memória): “Ai, palavras, ai palavras, que estranha potência a vossa! Todo o sentido da Vida começa à vossa porta”. Ali onde Hegel proclamou que “a poesia é a arte da palavra”, na linha do que muito depois, porém com o mesmo acerto, sentenciou Manoel de Barros: “Só a poesia salva a palavra da esclerose”. 

Que esse justo prêmio ao humanista Bob Dylan contribua para a sedimentação do juízo técnico de que também humanista é a Constituição brasileira. Por isso é que faz dos direitos sociais a necessária ponte entre o Constitucionalismo Liberal e o Constitucionalismo Fraternal. Assim está no inciso I do seu artigo 3.º, tanto quanto nestes precisos enunciados: o do artigo 170, cabeça, que imprime à nossa ordem econômica o fim de “assegurar a todos existência digna, conforme os ditames da justiça social”; e o do artigo 193, que põe “o primado do trabalho” como base de toda a ordem social brasileira, também a ter por explícitos objetivos “o bem-estar e a justiça sociais”. Se ainda é certo (e é) que a Constituição governa quem governa, o que se espera é que tais civilizados e pinaculares princípios não deixem de orientar a discussão das medidas legislativas de enfrentamento da atual crise econômica do País.

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