Bolsonaro, Trump e o lulismo com sinal trocado

A barbaridade com sinal invertido pode ser tão grave quanto a estupidez oposta

Rolf Kuntz, jornalista

11 Novembro 2018 | 04h30

Os maiores acertos do presidente eleito, até agora, foram as decisões de recuo. Ele acertou, por exemplo, ao abandonar a chocante e vergonhosa ideia de juntar os Ministérios do Meio Ambiente e da Agricultura. Também escapou de uma grossa bobagem ao desistir de subordinar a Controladoria-Geral da União ao novo Ministério da Justiça. Mostrou disposição para atender ao bom senso, pelo menos de vez em quando, e isso vale alguns pontos em sua coluna de créditos. Mas precisará de um desvio maior se quiser escapar da mais perigosa armadilha. O maior risco para o novo governo, e principalmente para o Brasil, ainda é a tentação de criar uma versão tropical do trumpismo, num esforço grotesco, e certamente muito custoso, para exorcizar o lulismo. Essa tentação tem sido especialmente visível nas manifestações sobre política externa. O futuro presidente, Jair Bolsonaro, parece ter percebido o erro de alguns lances, mas os motivos de preocupação permanecem.

Ele já admitiu, embora sem compromisso, reexaminar a ideia de transferir para Jerusalém a embaixada em Israel. O quase recuo ocorreu depois da reação de governos favoráveis aos palestinos. No protesto mais duro, autoridades do Egito suspenderam a visita de uma missão comercial brasileira. Se houve surpresa para o eleito e sua equipe, só pode ter sido porque o assunto nunca foi discutido, pelo menos com um mínimo de seriedade e de competência. O futuro presidente parece desassistido em matéria diplomática ou, pior, aconselhado por alguém capaz de enormes cretinices. Para ficar apenas no mais prosaico: países muçulmanos estão entre os maiores importadores de aves e de outros produtos da agropecuária brasileira. Ninguém da equipe sabia disso?

Outra bobagem monumental foi a manifestação de desprezo ao Mercosul, explicitada em primeiro lugar pelo futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, mas com apoio muito provável de seu líder. O Mercosul foi seriamente prejudicado pelas besteiras combinadas do petismo e do kirchnerismo. Continua longe de seus objetivos principais, uma ampla articulação econômica e social dos países-membros e a integração do bloco nos mercados globais. Nem o comércio intrabloco tem sido de fato livre. Mas a recuperação é possível se os governos brasileiro e argentino se empenharem.

Além do mais, como tratar o Mercosul como assunto secundário quando continua na pauta a conclusão do acordo com a União Europeia? Enfim, um detalhe simples e incontornável quando há um mínimo de decência: o bloco é uma união aduaneira e nenhum de seus membros pode celebrar acordos de livre-comércio sem a participação do conjunto. Ninguém terá contado esses fatos ao pessoal do futuro governo?

O Chile deve ser o destino da primeira visita internacional depois da posse, de acordo com as informações divulgadas até agora. Será, segundo se anunciou, um gesto de reconhecimento ao presidente Sebastián Piñera, o primeiro governante a cumprimentar Bolsonaro pela vitória. É uma boa justificativa, mas a decisão foi interpretada na vizinhança como sinal de menosprezo ao Mercosul. Será essa a imagem desejada pelo futuro presidente? Ele estará orgulhoso por ter sido saudado por auxiliares de Donald Trump como um aliado da política da Casa Branca?

Ao comentar seu contato com Bolsonaro, pouco depois da eleição, o presidente americano mencionou a expectativa de ver Brasil e Estados Unidos “trabalhando juntos em comércio, assuntos militares e tudo mais”. Na área comercial, a política de Trump já resultou em barreiras ao aço e ao alumínio exportados pelo Brasil.

A imposição de barreiras pode ser parte de uma política normal, dentro dos padrões internacionais. O governo brasileiro tem feito isso em muitas ocasiões. Mas padrões internacionais têm pouca importância, atualmente, para a Casa Branca, e as ações protecionistas de Donald Trump têm atropelado com frequência as normas da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Este é um ponto fundamental: o governo Bolsonaro será um defensor de uma ordem global fundada em regras multilaterais - e, portanto, civilizadas - ou aceitará o jogo da truculência e da imposição, característico do trumpismo?

Se o presidente estiver mesmo disposto, como anunciou, a nomear um profissional para chefiar a diplomacia, o caminho escolhido será provavelmente o civilizado. Poderá ser, também, o mais compatível com o interesse nacional.

Não está claro, no entanto, como ele percebe o interesse brasileiro e a sua articulação com a ordem global. Essa ordem tem várias dimensões e a econômica é uma das mais importantes para a rotina diplomática. O presidente eleito parece haver ignorado essa dimensão ao criar, em poucos dias, atritos com a China, os países muçulmanos e os parceiros do Mercosul.

Esses tropeços são atribuíveis, em boa parte, ao despreparo de conselheiros de Bolsonaro. Mas certamente há mais que isso. A tentação trumpista é evidente nas bobagens ditas sobre educação e no apoio ao projeto de lei da Escola sem Partido. Esse projeto, com linguagem até contida, é um passo indisfarçável na direção da censura e do cerco policialesco a escolas e professores. A mesma tentação ficou patente na ameaça de privar meios de comunicação, por decisão política, de propaganda oficial. Bolsonaro terá julgado aceitável a truculência de Trump - mais uma entre muitas - na discussão recente com um repórter da CNN na Casa Branca?

Na diplomacia com laivos trumpistas, na politização das verbas de propaganda e também na visão ideológica do ensino, o presidente eleito replica os vícios do PT, multiplicando-os, porém, por menos um. Isso apenas troca o sinal. Barbaridades com sinal trocado podem ser tão graves quanto as do lado oposto. A semelhança entre Lula e Trump já havia sido apontada. Bolsonaro terá notado o parentesco?

*ROLF KUNTZ É JORNALISTA

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