Bom, barato, mas não se faz

A capital paulista deve se preparar para enfrentar o pior na temporada de chuvas, que já começou, não apenas porque grandes obras como canalização de córregos e expansão da rede de piscinões, por exemplo, estão atrasadas. Neste caso, o poder público - a Prefeitura e o governo do Estado, conforme o caso - pode alegar que elas são caras e demoradas, embora isso nem sempre seja uma boa desculpa, porque, como estão previstas há muito tempo, tanta demora não se justifica mais. Os transtornos vão ser grandes também porque obras e serviços de manutenção, de custo relativamente barato, mas de grande importância, não foram executadas a tempo. O melhor exemplo disso é o sistema de semáforos.

O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2012 | 02h06

Só 200 dos 4.815 controladores de semáforos da cidade - ridículos 2% - foram dotados de sistema antiapagão - baterias que impedem que os aparelhos fiquem apagados ou com a luz amarela piscando, em consequência das quedas de energia ocorridas durante as chuvas ou de avarias provocadas por infiltrações. Esse é um dos problemas mais frequentes nessa época, com graves efeitos sobre o trânsito, que já sofre com a lentidão provocada pela prudência dos motoristas em pistas molhadas e se agrava com a falta de funcionamento de um grande número de semáforos.

As baterias garantem quatro horas de funcionamento dos aparelhos, tempo suficiente para que os reparos sejam feitos, sem que o trânsito seja comprometido. É muito difícil acreditar que a Prefeitura só tenha recursos para instalar baterias em 200 daqueles equipamentos e, "em breve" - ou seja, sabe-se lá quando - em outros 174. Como diz muito bem o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Engenharia de Trânsito (Abeetrans), Sílvio Médici, "falta investimento em novas tecnologias para poder manter o sistema operando com qualquer condição climática. São Paulo não pode ter esse tipo de problema".

Só falta acrescentar que isso se aplica a todos os aspectos do sistema de semáforos, não apenas ao que diz respeito à preservação de seu funcionamento durante as chuvas. O descaso com esses equipamentos não é um problema menor, tendo em vista a sua importância para o controle do fluxo do trânsito. E ele vem de longa data. Não é exclusivo dessa administração, o que não diminui sua responsabilidade. É verdade que ela tem consciência da má situação em que se encontra o sistema, pois lançou em 2007 o Programa de Revitalização Semafórica. Infelizmente, seus resultados têm ficado muito aquém do esperado.

E não só por causa dos equipamentos antiapagão. A situação dos semáforos inteligentes é igualmente desanimadora. Dos 6.156 cruzamentos com faróis, só 1.633 contam com sistema inteligente, que tem esse nome pela sua capacidade de programar o tempo dos sinais verde e vermelho de acordo com o fluxo de veículos, de forma a facilitar o trânsito. Além de seu número reduzido, boa parte deles não funciona por falta de manutenção adequada. Eles começaram a ser instalados há quase 20 anos, em 1994, e nunca receberam a devida atenção. E sua importância é inegável, pois, segundo estimativa dos especialistas, um bom sistema de semáforos inteligentes pode melhorar o trânsito em até 25%.

A falha não se limita à manutenção dos aparelhos. Falta também fiscalização da ação de empreiteiras e concessionárias, que destroem ou danificam os sensores colocados no asfalto para captar dados sobre o volume de tráfego. Elas nem sempre fazem os reparos necessários e não são devidamente punidas por isso.

Nada disso acontece por falta de dinheiro. Reportagem do Estado mostra que recursos provenientes de um empréstimo do Banco Interamericano de Desenvolvimento, destinado à instalação de semáforos inteligentes, foram desviados para obras como a reforma da Praça Roosevelt e da Biblioteca Mário de Andrade. Mesquinharia desnecessária. Afinal, é notório que há dinheiro de sobra para comprar radares e aumentar cada vez mais as multas, que enchem os cofres municipais. Logo, há também para os semáforos. É só querer.

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