Bom de comunicação

O governo Barack Obama mostrou competência na busca e captura de Osama bin Laden. Demonstrou igual competência na comunicação desse momento à opinião pública norte-americana e internacional.

Sergio Amaral, O Estado de S.Paulo

21 Maio 2011 | 00h00

Na verdade, Obama já exibira a qualidade de sua comunicação na campanha eleitoral. Seu site foi, possivelmente, o melhor já produzido pela comunicação política. A mensagem enviada pela internet a milhões de eleitores instilava a cada dia, num tom intimista e mobilizador, os motes da campanha: nós somos diferentes, não somos o establishment de Washington, não recebemos o dinheiro dos bancos de Wall Street e juntos poderemos mudar este país. Yes, we can.

No dia da posse, quando todos esperavam a imagem solene do novo presidente, a mídia mundial estampou, em primeira página, uma foto inusitada. Horas antes de fazer o juramento de posse, Obama, de jeans, no segundo degrau de uma escada, pintava a parede de um quarto, numa casa simples. Na sua singeleza, a foto era cheia de significado. Era como se Obama dissesse: vocês podem pensar que, quando eu assumir o poder, morar na Casa Branca, perto dos ricos e poderosos, serei diferente; estão enganados; o que eu sou e continuarei a ser é um organizador de comunidades; continuarei junto do meu povo.

No plano externo, a atenção de Obama para com a comunicação traduziu-se numa ênfase na diplomacia pública. Comenta a imprensa francesa que, por ocasião de sua visita à França, em junho de 2009, Nicolas Sarkozy teria manifestado frustração com os 20 minutos reservados ao encontro entre os dois presidentes. Obama passou a maior parte do tempo em Paris em visitas a monumentos históricos, acompanhado por sua família. Pouco antes, no Egito, o pronunciamento dirigido ao mundo islâmico foi feito na Universidade do Cairo. No Rio de Janeiro, o discurso na Cinelândia, um lugar insólito para um chefe de Estado, estava programado para ser um dos pontos altos de sua visita, o encontro com a população brasileira.

A comunicação do governo Obama atingiu a sua melhor qualidade com a estratégia montada para a divulgação da morte de Bin Laden. A foto estampada em primeira página em quase toda a imprensa mundial, na segunda-feira, um dia após a morte de Bin Laden, é um convite ao leitor ou ao espectador para compartilhar com a cúpula do governo o momento decisivo da operação.

É a cena do presidente, do vice-presidente, de ministros e seus assessores reunidos na "sala de situação" para acompanhar a transmissão por vídeo da invasão da casa onde se encontrava Bin Laden. O único em ação é o general Webb, vice-comandante das operações especiais, que, supõe-se, mantinha o contacto com coordenadores da invasão. Todos os demais estavam quietos e muito atentos. Obama não aparece ao centro da foto, como costumam ser fotografados os presidentes. Está num canto, silencioso e concentrado. Hilary Clinton, chefe da diplomacia americana, com mão à boca, dá a nota de apreensão. É como se dissesse: se isto não der certo, estamos perdidos.

As notícias continuaram a sair ao longo dos dias seguintes, como se tivessem sido distribuídas em doses homeopáticas, de modo a manter o tema nas manchetes dos jornais e para que o governo continuasse a ser a fonte principal, se não exclusiva, das informações. A semana culminou, num toque de emoção, com a visita de Obama ao Marco Zero, em Nova York, para prestar homenagem às vítimas do 11 de Setembro e receber os agradecimentos emocionados de seus familiares. Nessa ocasião, não precisou sequer fazer um discurso. Bastou deixar que as imagens falassem por elas mesmas.

Numa época em que o tempo da atenção se reduz cada vez mais, em que os jovens são capazes de fazer três coisas ao mesmo tempo - estudar, ver televisão e escutar música -, a utilização da linguagem simbólica e da imagem em particular passam a ser a chave da comunicação política. Ainda mais quando os símbolos são transmitidos sem se fazerem notar. Uma foto, construída (como terá sido a da posse) ou não (como deve ser o caso da "sala de situação"), é um instrumento mais poderoso e convincente do que os longos, e muitas vezes enfadonhos, discursos; ou mesmo milionárias campanhas pagas, prontamente decodificadas como propaganda.

No plano internacional, o avanço da comunicação é ainda maior. A diplomacia pública já é praticada por vários países, especialmente os Estados Unidos, há varias décadas. Deverá tomar, progressivamente, espaço maior na política internacional.

A sociedade moderna vem-se vertebrando ante um Estado cada vez mais fraco. Tem um papel mais relevante na cena internacional, por meio de uma multiplicidade de atores. Até aí, todos os estudantes de Relações Internacionais bem sabem. Mas existe um aspecto novo, nem sempre percebido, que é o papel da sociedade na formação do que Habermas chama a opinião pública internacional. É internacional porque gestada e alimentada fora do controle e da esfera de ação ou manipulação dos Estados nacionais.

É essa opinião pública internacional que Obama e outros líderes ocidentais tinham em mente quando buscaram o apoio da Liga Árabe antes de atacar a Líbia.

Até há pouco, o governante precisava comunicar-se bem com a sua sociedade, para manter a popularidade ou conquistar apoio para suas políticas. No plano exterior, cabia à diplomacia preparar o terreno para superar conflitos ou construir o entendimento. Hoje isso continua necessário, mas não basta. É preciso também conquistar a opinião pública internacional para legitimar as ações, defender interesses ou promover a cultura. Muitas vezes será necessário visitar monumentos históricos, dar uma conferência na Universidade do Cairo e até mesmo, quem sabe, fazer um comício na Cinelândia.

EX-SECRETÁRIO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL DA PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA (GOVERNO FHC, 1995-98)

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