Bom senso como para-choque

A crise turca deixará algum resultado positivo se mais pessoas, dentro e fora dos governos, passarem a defender políticas prudentes e voltadas para o longo prazo

O Estado de S.Paulo

15 Agosto 2018 | 03h00

Com impactos no Brasil e em todo o mundo emergente, a crise turca deixará algum resultado positivo se mais pessoas, dentro e fora dos governos, passarem a defender políticas prudentes e voltadas para o longo prazo. A turbulência nos mercados, comentou o ministro da Fazenda, Eduardo Guardia, confirma a “absoluta necessidade” de avançar no programa de reformas estruturais. É o caminho, lembrou, para alcançar maior resistência a choques externos. Na Argentina, já forçada, há meses, a buscar o apoio do Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central acaba de aumentar de 40% para 45% a taxa básica de juros, para tornar o país menos vulnerável num ambiente global de muita insegurança. Mas a reação mais notável ao susto dos últimos dias ocorreu na Turquia, onde empresários cobraram das autoridades, no meio do conflito com os Estados Unidos, um retorno urgente ao bom senso econômico.

Enquanto o presidente anunciava um boicote a produtos eletrônicos americanos, empresários turcos de vários setores pediam ações contra a inflação e medidas para reequilibrar a economia. O governo precisa evitar danos econômicos permanentes, disseram em comunicado conjunto a União das Câmaras e Bolsas de Mercadorias e a Associação Turca Industrial e Empresarial.

As entidades pediram corte do gasto público, um plano claro para baixar a inflação, melhores vínculos com a União Europeia e esforço para encerrar o conflito com os Estados Unidos. Houve manifestações semelhantes de alguns dos maiores bancos. Ontem mesmo já se falou, extraoficialmente, de um aumento de juros para conter a alta de preços. Os empresários pediram, de imediato, medidas para levar a inflação – hoje na altura de 16% – a taxas abaixo de 10% ao ano.

Um dia antes a chanceler alemã, Angela Merkel, havia defendido a independência do Banco Central da Turquia. “Isso é também de nosso interesse”, afirmou, como se tentasse justificar seu palpite sobre a organização administrativa de um país amigo. Ficou o recado, antecipando, talvez, parte da conversa que terá com o presidente Erdogan, em setembro.

Até ontem, no entanto, o chefe do governo turco estava mais empenhado em mostrar firmeza diante das ações e ameaças do presidente Donald Trump. O presidente americano havia anunciado na sexta-feira anterior a duplicação – para 20% e 50% – das tarifas impostas à importação de alumínio e de aço produzidos na Turquia. Erdogan ameaçou iniciar um boicote a produtos eletrônicos originários dos Estados Unidos e concentrou o ataque no iPhone da Apple. Os turcos, disse Erdogan, poderão comprar aparelhos da Samsung ou produtos locais da marca Venus Vestel. Um boicote desse tipo dificilmente produzirá algum impacto econômico nos Estados Unidos, mas esse detalhe deve parecer irrelevante no meio do bate-boca com Trump.

A tensão poderá diminuir, se o governo turco libertar o pastor evangélico americano Andrew Brunson, preso sob acusação de apoiar uma tentativa de golpe. Os europeus têm interesse especial no fim dessa encrenca, embora o euro e outras moedas da Europa sejam pouco vulneráveis às tensões causadas pela briga entre os governos turco e americano. Estados Unidos e Turquia são membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e o presidente Erdogan, em resposta às ações da Casa Branca, tem buscado apoio diplomático na Rússia.

Contatos programados entre autoridades financeiras e empresários de vários setores, na Turquia, podem contribuir para um retorno do governo ao bom senso na política econômica. Se isso ocorrer, talvez o presidente Erdogan seja estimulado a buscar um caminho mais seguro na diplomacia. Nada garante uma guinada semelhante na orientação da Casa Branca. O currículo do presidente Donald Trump justifica todas as dúvidas. Para o Brasil e outros emergentes, sobra dessa crise, por enquanto, pelo menos o reforço de uma velha lição: bons fundamentos econômicos são a melhor proteção contra choques externos.

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