Bons sinais, não do Brasil

Há sinais de recuperação da economia global, com os Estados Unidos liderando a lenta retomada do crescimento no mundo rico, segundo avaliam os especialistas da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), numa rara mensagem de otimismo. Os países da zona do euro devem ter tocado o fundo do poço e em breve deverão exibir sinais de retomada. O Japão, um ano depois do terremoto seguido de tsunami, também começa a se mover. Em contrapartida, grandes economias emergentes, as mais dinâmicas durante a longa estagnação mundial, parecem perder impulso, mas a maior delas, a China, deve ainda crescer 7,5%, segundo projeção do governo. No conjunto, é um cenário positivo, exceto para o Brasil. Os indicadores combinados da OCDE mostram uma economia brasileira em desaceleração, embora as autoridades nacionais continuem prometendo para 2012 uma expansão de cerca de 4,5%.

O Estado de S.Paulo

14 Março 2012 | 03h08

O moderado otimismo em relação aos países desenvolvidos combina com os últimos dados disponíveis. Nos EUA, as vendas do comércio varejista aumentaram 1,1% em fevereiro, maior taxa em cinco meses. Esse dado reforça bons indicadores recentes - crescimento econômico anualizado de 3% no quarto trimestre de 2011 e criação de empregos, no mês passado, maior que a prevista pelos mercados. Na zona do euro, a grande notícia dos últimos dias foi a grande adesão dos credores privados à proposta de redução da dívida grega - um calote combinado com os credores. O governo grego ainda terá de executar um difícil e penoso ajuste das contas públicas e reformas politicamente difíceis, mas saiu do sufoco e ganhou um bom tempo. Seus financiadores oficiais deverão liberar em breve a primeira parcela do novo pacote de 130 bilhões, bancado por países da zona do euro e pelo FMI. Até o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäeuble, mostrou-se nesta terça-feira um pouco menos agourento em relação à Grécia. Segundo ele, há uma chance maior, agora, de redução do peso da dívida grega até 2020.

O sucesso na renegociação entre o governo grego e seus credores contribuiu para a melhora de humor nos mercados financeiros, especialmente da Europa. A atuação do Banco Central Europeu (BCE) já vinha facilitando a rolagem das dívidas de vários países e, ao mesmo tempo, elevando a segurança do sistema bancário.

"Os países deverão usar essa fase de estabilidade financeira para avanços adicionais nos programas de reformas necessários para fortalecer seu potencial de crescimento, impulsionar a economia e aumentar a competitividade", disse o presidente do BCE, Mario Draghi. Embora em tom otimista, o discurso de Draghi realça a enorme pauta de ajustes e reformas indispensáveis para o retorno ao crescimento seguro e duradouro. Para alguns governos, como os da Espanha e Portugal, esse conjunto de tarefas será politicamente muito difícil. Na Itália, o governo tecnocrático de Mario Monti conseguiu avanços consideráveis.

Se a avaliação dos técnicos da OCDE for correta, o cenário do mundo rico será melhor do que tem estimado o governo brasileiro. Mas o Brasil tornou-se muito dependente do crescimento da China. Essa dependência resulta, em grande parte, de erros de diplomacia comercial, que negligenciou os mercados desenvolvidos, e da perda de competitividade da indústria brasileira. A situação da indústria reflete as deficiências da política econômica na fixação de prioridades, na promoção de investimentos indispensáveis e na realização de reformas essenciais para a construção de um país mais eficiente.

Segundo a OCDE, o Brasil cresce abaixo de seu potencial. Isso deve ser verdadeiro, mas o potencial de expansão da economia brasileira, segundo estudo recente da FGV, diminuiu nos últimos anos e deve estar na faixa de 3,5% a 4% ao ano. Os ganhos de produtividade iniciados nos anos 90 já se esgotaram e já se deveria ter iniciado há muito tempo uma nova rodada de reformas. Sem isso, o Brasil ficará para trás na próxima fase de crescimento global.

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