Bons sinais, por enquanto

País precisa de investimentos muito maiores. O primeiro passo será vencer a crise política

O Estado de S.Paulo

08 Agosto 2016 | 05h00

É cedo para falar em recuperação da economia, apesar de alguns sinais animadores observados principalmente na atividade industrial. A advertência, tão oportuna quanto sensata, foi feita pelo chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Tulio Maciel, ao apresentar em Curitiba, na sexta-feira passada, o Boletim Regional produzido pela instituição a cada três meses. Não há como desprezar, é claro, os indícios positivos trazidos pelo relatório. Em três das cinco regiões o indicador de atividade no período de março a maio foi mais alto que no trimestre imediatamente anterior. Houve aumentos de 1,1% nos Estados do Norte, de 0,4% no Sudeste e de 1,6% no Sul. Nos outros dois, Centro-Oeste e Nordeste, os dados mostraram recuo de 1,2% e de 0,4%. Mas o balanço geral ainda aponta uma economia muito fraca e em condições bem piores que as do ano anterior, quando o País já afundava numa severa recessão.

O quadro mais amplo, resumido no Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), ainda mostrou uma queda de 1,86% de abril para maio, na série livre de fatores sazonais. Com isso, os negócios ainda ficaram 5,32% abaixo dos de maio de 2015, na mesma série. O desempenho acumulado no ano foi 6,26% inferior ao dos primeiros cinco meses do ano passado. Em 12 meses, a baixa ficou em 5,51%. Na série sem desconto de elementos sazonais, a queda em 12 meses ficou em 5,43%.

O IBC-Br é usado como prévia dos números do Produto Interno Bruto (PIB), divulgados a cada trimestre. O PIB do período abril-junho deverá ser publicado no fim de agosto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Apesar de alguns sinais favoráveis no fim do semestre, o cenário geral ainda será muito ruim. Considere-se, por exemplo, o caminho necessário, a partir do IBC-Br de maio, só para alcançar o nível médio de 2015, isto é, para estabelecer um zero a zero na comparação entre os dois anos. Mas, para anular as perdas da recessão, ainda seria necessário compensar na contração de 2015, quando o PIB diminuiu 3,8%.

Com isso, a economia estaria de volta ao nível de produção de 2014, mas numa situação ainda insatisfatória. Afinal, naquele ano o PIB cresceu apenas 0,1%, número insuficiente para disfarçar o início da recessão dominante em 2015 e 2016.

Por enquanto, os sinais mais positivos indicam, como têm observado alguns empresários e analistas, uma tendência à estabilização, mas num nível de atividade muito baixo. A queda parece estar chegando ao fim. Se essa avaliação for confirmada, ainda serão necessárias novas indicações de melhora para se poder falar de uma retomada do crescimento. Mas poderá haver, ainda por algum tempo, um descompasso entre os indicadores de produção industrial, de emprego e de consumo.

Em São Paulo e em Minas Gerais, segundo o Boletim Regional, “a persistência de resultados negativos no comércio e no setor de serviços se contrapôs a sinais de recuperação da indústria”, no trimestre encerrado em maio. Não há mistério: a atividade industrial foi em boa parte alimentada, nesse período, pela recomposição de estoques, depois da liquidação de excedentes, e por alguma recuperação das exportações, facilitada pela valorização do dólar – um processo recentemente invertido.

O desemprego provavelmente continuará elevado por muitos meses, limitando o consumo. A produção industrial poderá aumentar, mas em ritmo prejudicado pelas dificuldades e pela insegurança das famílias. Se as condições políticas forem favoráveis – e isto pressupõe a conversão do governo interino em efetivo –, a confiança de empresários e consumidores tenderá a ser fortalecida e a recuperação será mais firme e mais segura. Mas isso dependerá também do avanço no reparo das contas públicas, destroçadas durante anos de irresponsabilidade, e do sucesso da política anti-inflacionária. Ainda será preciso aumentar o potencial de crescimento, com investimentos muito maiores. O primeiro passo será vencer a crise política e consolidar a nova orientação econômica.

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