Bons ventos, por enquanto

Com dinheiro ainda sobrando no mercado internacional, juros baixos nos Estados Unidos, Europa em recuperação e a economia chinesa crescendo entre 6% e 7% ao ano, o cenário global continua benigno para o Brasil – mas até quando?

O Estado de S.Paulo

24 Janeiro 2018 | 03h04

Com dinheiro ainda sobrando no mercado internacional, juros baixos nos Estados Unidos, Europa em recuperação e a economia chinesa crescendo entre 6% e 7% ao ano, o cenário global continua benigno para o Brasil – mas até quando? A palavra “benigno” tem sido usada com frequência em documentos do Banco Central (BC) para qualificar o quadro externo. Mas o presidente da instituição, Ilan Goldfajn, já advertiu várias vezes: todos devem preparar-se para quando as condições nos principais mercados se tornarem menos favoráveis, ou mesmo adversas. Essa advertência tem sido feita, com palavras diferentes, por economistas e dirigentes das mais importantes instituições multilaterais.

Com ventos favoráveis e tempo bom na economia global, os mercados brasileiros quase ignoraram o novo rebaixamento da nota de crédito do País pela agência Standard & Poor’s. Os negócios continuaram fluindo, como se nada muito preocupante houvesse ocorrido, e o principal índice do mercado de ações, o Ibovespa, ultrapassou pela primeira vez a marca de 80 mil pontos.

Nos dias seguintes apareceram novas confirmações do cenário benigno. A China, principal destino das exportações brasileiras, cresceu 6,9% no ano passado, segundo informação divulgada na quinta-feira passada. No trimestre final, o Produto Interno Bruto (PIB) foi 6,8% maior que no período de outubro a dezembro do ano anterior. Em 2016, o crescimento anual havia ficado em 6,7%.

O governo chinês tem procurado recompor a economia nacional, buscando um modelo com maior consumo interno, menor peso do investimento e menor dependência do comércio externo. Além disso, tem dado maior atenção a alguns desequilíbrios, como o excessivo endividamento de administrações subnacionais e um excesso de riscos financeiros. Mas o crescimento econômico, embora menor que nas fases de maior dinamismo, permanece vigoroso.

Para o Brasil, a prosperidade chinesa tem sido um fator de tranquilidade. No ano passado, as exportações para a China renderam US$ 47,49 bilhões, 21,80% da receita geral das vendas externas. O mercado chinês vem sendo há anos o principal destino dos produtos exportados pelo Brasil.

Mas a relação entre os dois países, classificada como parceria estratégica pelos governos petistas, lembra facilmente o comércio de velho estilo entre colônia e metrópole. Em 2017, 97,33% das importações brasileiras de produtos chineses foram de manufaturados. Em contrapartida, só 3,96% das vendas brasileiras foram classificadas nessa categoria. Incluídos os semimanufaturados, o total dos industrializados chegou a 13,51%. São porcentagens escandalosamente pequenas quando comparadas com as de outras parcerias.

No ano passado, 56,36% das vendas brasileiras para os Estados Unidos foram de manufaturados. O total dos industrializados chegou a 74,95%. O valor dos manufaturados vendidos à China ficou em US$ 1,88 bilhão. Aqueles mandados ao mercado americano proporcionaram US$ 15,14 bilhões e os vendidos à União Europeia, US$ 11,82 bilhões.

Não tem sentido lamentar a venda de matérias-primas agrícolas e minerais à China ou a qualquer mercado. Mas é preciso analisar as condições de comércio entre os dois parceiros, entender como se mantém a relação de tipo colonialista e descobrir como se podem mudar as condições dessas trocas.

Quanto ao comércio, convém, portanto, olhar um pouco mais criticamente as condições externas “benignas”, até porque as ameaças de protecionismo em economias avançadas são relevantes. Em relação ao mercado financeiro, é preciso levar em conta a perspectiva de novos aumentos de juros nos Estados Unidos, provavelmente mais três em 2018. Além do mais, políticas monetárias frouxas no mundo rico facilitaram operações de alto risco. O Fundo Monetário Internacional e outras instituições têm acionado o sinal amarelo. Tudo isso reforça a urgência dos ajustes internos. Mas em Brasília, como é normal, pouquíssimos parecem dar alguma atenção às advertências.

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