Brasil e AL mais vulneráveis

Em vez de protestar contra o rebaixamento da nota de crédito do País pela Standard & Poor's, a presidente Dilma Rousseff deveria dar atenção à advertência do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID): os países latino-americanos estão menos preparados para um choque externo do que estavam em 2007, quando bancos americanos começaram a quebrar, prenunciando a Grande Recessão. O aviso vale para toda a região e é especialmente útil para países como o Brasil, onde se combinam vários desajustes importantes - inflação elevada e resistente, contas públicas em deterioração, baixo ritmo de crescimento econômico e transações correntes no vermelho.

O Estado de S.Paulo

01 Abril 2014 | 02h09

Sem discutir em detalhe os grandes problemas de cada país, o estudo chama a atenção principalmente para a piora das condições fiscais e para a dependência crescente, na região, de financiamentos externos. O quadro geral, sem dúvida, é bem menos animador do que o de alguns anos. Durante a maior parte da última década, a América Latina (AL), com exceção de algumas economias muito mal administradas, chamou a atenção pela melhora de seus fundamentos. Durante muito tempo a região havia sido conhecida pela instabilidade política e pela frequência das crises financeiras e econômicas.

Países latino-americanos eram clientes habituais dos programas de ajuda financeira do FMI e podiam servir, em manuais de economia, como exemplos perfeitos da relação entre desajustes fiscais e desequilíbrio das contas externas. Na metade dos anos 90 o Chile ainda era a exceção mais notável. Mas nessa época o cenário já começava a mudar, embora a região ainda tenha sido amplamente afetada por uma crise interna - a do México, em 1995 - e as da Ásia e da Rússia, em 1997 e 1998. A crise brasileira de 1999 foi em parte um reflexo de erros domésticos e em parte um reflexo do problema da Rússia.

Nos primeiros anos do século 21 a imagem da América Latina mudou. O fato foi reconhecido até com entusiasmo nas assembleias conjuntas do FMI e do Banco Mundial, inicialmente com alguma cautela: a mudança seria duradoura? Mas a nova imagem acabou fazendo parte do cenário internacional, quando se confirmaram, por alguns anos, a melhora das finanças públicas e o fortalecimento das contas externas. Com fundamentos muito melhores que em várias décadas anteriores, os latino-americanos suportaram bem os impactos da crise agravada a partir de 2008 e os efeitos da recessão nas economias desenvolvidas.

Quando a crise começou, a maior parte dos governos latino-americanos tinha condições de recorrer a políticas contracíclicas, aumentando os gastos para estimular a atividade e até afrouxando o controle monetário. Em alguns países, no entanto, os estímulos fiscais foram prolongados e incluíram despesas permanentes. As contas externas também se enfraqueceram e esse novo quadro justifica a preocupação indicada no estudo do BID.

Os autores do estudo levaram em conta a possível combinação de três choques: um aperto monetário mais rápido que o esperado, se o crescimento econômico americano superar as previsões; uma queda de rentabilidade do capital nos Estados Unidos; e um crescimento chinês mais lento que o estimado até agora. Os efeitos desses choques foram comparados com um cenário básico - as projeções de janeiro do FMI.

Para o conjunto das economias, o crescimento passaria de 3,3% ao ano entre 2014 e 2016 (projeção do FMI) para 3,2%. O efeito geral seria muito pequeno. No caso do México, o resultado seria positivo, porque o efeito preponderante seria o da recuperação econômica dos Estados Unidos. Para Chile, Colômbia, Equador e Peru o resultado negativo seria sensível, mas a menor expansão ainda seria 4% (caso da Colômbia). O crescimento brasileiro, já baixo no cenário básico (2,8%) passaria a 2,4%, principalmente por causa da dependência em relação à China. A expansão americana seria pouco aproveitada. A estagnação industrial e a baixa competitividade do Brasil, bem conhecidas dos brasileiros, já são componentes da paisagem.

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