Brasil e China, inevitável complementaridade

Por ocasião da Conferência Internacional do Conselho Empresarial Brasil-China, realizada em novembro, o diretor de Integração do Banco Interamericano de Desenvolvimento apresentou os resultados de uma pesquisa sobre as relações entre a Ásia e a América Latina (Shaping the Future of the Asia and Pacific-Latin America and the Caribbean Relationship, ADB-IDB ACB Institute). Alguns dados desse estudo merecem atenção.

Sérgio Amaral*, O Estado de S.Paulo

26 Dezembro 2012 | 02h05

A participação da Ásia no comércio latino-americano mais que dobrou na última década. Por trás dos números está uma complementaridade entre as principais economias. De um lado, China, Japão, Coreia, Vietnã têm expressivo déficit de terras cultiváveis e água. De outro, a nossa região, em particular o Mercosul, apresenta superávit.

Tomemos o caso da relação Brasil-China. Nos últimos anos as exportações brasileiras de soja e de minério de ferro para a China cresceram persistentemente. Em contrapartida, as exportações da China para o Brasil de produtos manufaturados aumentaram. Em resumo, o Brasil exporta para a China cada vez mais commodities e, em termos relativos, cada vez menos manufaturas.

O cenário dos últimos anos suscita duas questões: o padrão de comércio commodity x manufatura é uma tendência ou apenas um momento? Há como escapar ao determinismo da geografia? A resposta à primeira pergunta é que a demanda da Ásia por commodities metálicas e alimentares deve durar pelo menos algumas décadas, enquanto a China completa a transferência de cerca de 300 milhões de pessoas do campo para a cidade. Os novos habitantes das cidades precisarão de moradias (portanto, de minério de ferro para a construção) e de soja e proteína animal para se alimentarem.

Nós, que sempre reclamamos da Europa por não comprar mais produtos agrícolas, não podemos agora nos queixar da China por comprar. Mesmo porque as exportações de commodities incorporam cada vez mais tecnologia na extração do minério, na produção de alimentos e nos transportes.

A questão está em saber se teremos condições de competir com os produtos industriais chineses no seu mercado ou no nosso. A resposta não é simples. Como concorrer com uma economia que, além de mão de obra barata, conta com uma taxa de juros negativa, uma carga fiscal abaixo de 20% do PIB, taxa de poupança superior a 40%, infraestrutura inteiramente modernizada e um sistema educacional mais inclusivo e, em média, de melhor qualidade?

A importação de produtos manufaturados chineses cresce a olhos vistos. Alguns anos atrás, o surto de importações chinesas suscitava reclamações e muito ruído. Hoje as importações continuam a crescer, mas de modo mais silencioso. Para sobreviverem muitas indústrias brasileiras passaram a trazer da China os produtos que antes fabricavam. Emprestam-lhes a marca, a distribuição e a assistência técnica. As empresas foram salvas, mas vários segmentos industriais fecharam a porta da produção para se dedicarem à comercialização. É a nova etapa da desindustrialização. Esse fenômeno não é capturado pelas estatísticas, nem o industrial, por constrangimento, a ele se refere. E não poderá ser contido por normas de defesa comercial, que não consideram a importação defensiva um dano, ainda que leve a indústria a ser desalojada do mercado. A importação é, assim, o analgésico do processo sempre doloroso da reestruturação industrial. Mas claramente não é uma solução, porque no limite acelerará a desindustrialização.

Em alguns casos, as medidas tópicas de proteção podem se justificar, se forem temporárias e com o objetivo de promover o ajustamento. Mas não constituem uma alternativa à necessidade de melhorar as condições de competitividade da economia. Nem a uma política industrial voltada para a reconversão da indústria em direção da valorização de nossos recursos naturais. Ou seja, no caso do intercâmbio com a China, o desafio está em tirar proveito da complementaridade existente para promover uma política de transformação industrial, a começar pelos setores em que somos competitivos, como é o caso, entre outros, do agronegócio.

Em princípio, não haveria obstáculo intransponível para que o Brasil, em vez de café, soja ou carne, pudesse vender mais à China café solúvel, óleo de soja e outros alimentos processados. Algumas empresas pioneiras já indicam o caminho, como a Marfrig e a BR Foods, ao estabelecerem parcerias com empresas chinesas para entrarem na distribuição de seus produtos na China.

Mas seria certamente necessário revisar e focalizar algumas políticas industriais, com o objetivo de dar dimensão a esse processo ainda incipiente:

Investir na tecnologia e inovação voltadas para o processamento de alimentos. Em resumo, desenvolver, numa parceria entre governo e empresas, uma Embrapa da transformação alimentar;

Adotar uma política tributária para a agregação de valor, em vez da situação atual, em que os produtos in natura pagam menos impostos que os industrializados;

Promover a integração das cadeias produtivas do agronegócio em escala regional sul-americana, de modo a aumentar a sua competitividade;

Por fim, levar adiante um processo negociador com a China, em que a disposição do Brasil de manter suas fronteiras abertas para produtos e investimentos chineses tenha como contrapartida a progressiva eliminação de escaladas tarifárias, restrições e licenças para a entrada de produtos e investimentos brasileiros na China.

A complementaridade não pode ser vista necessariamente como um mal ou apenas como um risco para a economia a ser, em vão, contido. Mas, sobretudo, como a oportunidade de uma reconversão produtiva voltada para valorizar e tirar proveito das nossas vantagens comparativas.

* Presidente do Conselho Empresarial Brasil-China foi ministro da Indústria e do Comércio

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