Brasil e EUA voando juntos?

As relações entre os dois países podem decolar, mas existe turbulência no ar

Paulo Sotero, jornalista

23 Novembro 2018 | 03h30

Com Donald Trump na Casa Branca e Jair Bolsonaro no Planalto, a convergência ideológica e de estilo político dos dois líderes populistas deve elevar o diálogo entre o Brasil e os Estados Unidos a seu patamar mais promissor em um quarto de século. Algo semelhante ocorreu entre 1995 e 2000, quando Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso coincidiram no poder. Mas o namoro não prosperou.

A disposição de tentar novamente é forte nas duas capitais. Declarações de simpatia trocadas por Bolsonaro e Trump, a orientação liberal da equipe do futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, a nomeação para o Itamaraty do embaixador Ernesto Araújo, admirador declarado do líder americano, a visita de um dos filhos do presidente eleito a Washington e a escala que o conselheiro de segurança da Casa Branca, John Bolton, fará no Rio na próxima semana, a caminho da reunião de cúpula do G-20, para se reunir com Bolsonaro atestam uma forte vontade de aproximação. Tornar o desejo realidade dependerá, no entanto, da capacidade dos dois governos de remover obstáculos e identificar iniciativas que produzam resultados.

Com o Partido Democrata determinado a usar sua recém-conquistada maioria na Câmara de Representantes para solapar o poder de Trump, o diálogo bilateral pode ser prejudicado pela marcação cerrada esperada no Capitólio a decisões de Brasília sobre política ambiental e climática que possam ser percebidas como de alinhamento às preferências do presidente americano. No lado brasileiro, a expectativa da Casa Branca de que País escolha um lado na confrontação comercial e geopolítica entre EUA e China, que tem sido vantajosa para os exportadores brasileiros, não encontra respaldo. E sofre forte oposição do agronegócio, uma das bases de sustentação de Bolsonaro, que resiste também a que o País siga Trump e mude sua embaixada em Israel para Jerusalém, pondo em risco bilhões de dólares em exportações de carnes para países islâmicos. Tampouco há entusiasmo na sociedade brasileira por maior protagonismo diplomático na crise da Venezuela, desejado pela Casa Branca.

Somam-se a esses obstáculos as dúvidas em Washington sobre a capacidade política da equipe de Guedes de avançar em sua bem-vinda agenda de liberalização econômica. A presença no Ministério de generais da reserva identificados como nacionalistas e o endosso de parte importante do empresariado que apoiou Bolsonaro a políticas protecionistas que sempre os beneficiaram alimentam dúvidas na administração americana sobre o apego do presidente eleito, um liberal de recente conversão, ao projeto aberturista de seu futuro superministro da Economia.

É certo que uma aproximação efetiva com os EUA ajudaria a atrair investimentos e tecnologias necessários para aumentar o crescimento e a produtividade da economia, criar empregos e convencer a sociedade e o Congresso sobre os méritos das impopulares reformas estruturais, como a da Previdência. A ironia por trás da preocupação de Washington com o sucesso de Guedes é que a administração Trump abandonou o discurso liberal do Partido Republicano sobre a globalização, vista agora como ameaça, e o substituiu pela defesa, familiar a ouvidos brasileiros, do protecionismo.

Num rumo promissor, há sobre a mesa a proposta de parceria entre a Embraer e a Boeing. As negociações entre as duas empresas foram realizadas ao longo do último ano e meio com o assentimento do governo brasileiro. O negócio conta com a simpatia do presidente eleito e com o crucial apoio da Força Aérea Brasileira (FAB), berço da Embraer.

“É a primeira vez que uma negociação desse porte é realizada por duas empresas privadas de um setor estratégico para a economia e a projeção internacional de ambos os países”, disse um executivo envolvido nos entendimentos. Sua efetivação introduziria na relação bilateral um elemento de novo, de engajamento de longo prazo, até agora ausente. O negócio, praticamente pronto para ser finalizado, está descrito no site voandojuntas.com, que as duas empresas puseram no ar em meados do ano. Será esse o ato inaugural da política externa de Bolsonaro?

Diplomacia presidencial certamente faz diferença quando a convergência de ideias no topo é lastreada por interesses comuns. Social-democratas de temperamentos e estilos políticos compatíveis, Clinton e FHC construíram um diálogo institucional nos anos 1990 que produziu frutos. Um deles, o acordo sobre o uso por empresas americanas da base de lançamento de satélites de Alcântara, acabou vetado no governo de Lula da Silva. Por sensato e lógico, porém, permaneceu na pauta brasileira com os EUA. Em 2016 voltou a ser tema do diálogo bilateral e se depender de Brasília ganhará novo impulso. O futuro ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, tenente-coronel da reserva, ex-piloto da FAB e o primeiro astronauta brasileiro, treinado na Nasa, já manifestou seu apoio à retomada do projeto de Alcântara. “Não fere a soberania nacional de jeito nenhum”, afirmou ele, respondendo ao argumento que levou ao arquivamento do acordo negociado por FHC com Clinton.

O Acordo Mútuo de Assistência Legal (MLAT, na sigla em inglês), proposto por Washington, é outro exemplo de diplomacia presidencial consequente da era FHC-Clinton. O MLAT facilitou as investigações sobre o roubo de cerca R$ 2 bilhões da Previdência Social perpetrado ao longo de anos 80 e início dos 90 por uma quadrilha instalada no INSS. Parte do dinheiro foi localizada em contas nos EUA e restituída ao País. O uso frequente do canal de contato direto entre promotores públicos federais dos dois países, propiciado pelo acordo, contribuiu para a construção de uma relação de confiança que se mostrou útil, anos depois, nas investigações das ramificações internacionais do grande assalto à Petrobrás, conduzidas sob a liderança do ex-juiz e próximo ministro da Justiça, Sergio Moro.

*JORNALISTA, PAULO SOTERO É DIRETOR DO BRAZIL INSTITUTE DO WOODROW WILSON INTERNATIONAL CENTER DO SCHOLARS, EM WASHINGTON

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.