Brasil e Turquia devem mediar novo acordo?

Os governos do Ocidente deveriam pedir à Turquia e ao Brasil que se envolvam novamente na busca de um acordo nuclear com o Irã e restabelecer o diálogo com Teerã. Isso soa como conselho do Amigo da Onça, mas não é. A recomendação foi feita na semana passada pela renomada professora de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade de Princeton Anne-Marie Slaughter, em artigo no Financial Times sobre o relatório da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) com informações "críveis" a respeito de "atividades de desenvolvimento de um explosivo nuclear" no Irã.

Paulo Sotero, jornalista, é diretor do Brazil Institute do Wilson Center, em Washington, O Estado de S.Paulo

28 Novembro 2011 | 03h06

No artigo, intitulado A diplomacia é a opção menos danosa, Slaughter apresenta as razões por que os EUA e seus aliados europeus deveriam incentivar a participação do Brasil e da Turquia na busca de um entendimento com o Irã, apenas 18 meses depois de terem rejeitado proposta de acordo que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro turco, Tayyip Erdogan, negociaram em Teerã. A professora observa que as fricções entre a Turquia e o Irã estão aumentando, particularmente por causa dos levantes populares na Síria e nos países árabes, e argumenta que "a Turquia tem interesse direto em evitar um desfecho em que o Irã lhe roube a cena como o único poder nuclear na região, além de Israel". Acrescenta que "o Irã tem interesse em trabalhar com a Turquia ao menos parte do tempo na complexa política triangular que emerge entre Turquia, Irã e Arábia Saudita".

E o Brasil? Para Slaughter, Dilma Rousseff "tem interesse em fazer algo que Lula foi incapaz de alcançar". Segunda ela, "o Brasil tem um forte incentivo (para agir) como nação que flertou com o desenvolvimento de armas nucleares, mas renunciou a seu programa". Diante disso, está na hora de a Turquia e o Brasil iniciarem "uma nova rodada de negociações sob os auspícios da ONU - com pleno apoio de EUA, França, Rússia e de outros poderes interessados".

A sugestão da professora é significativa por duas razões.

Ela era diretora de Planejamento Político do Departamento de Estado e conselheira da secretária de Estado Hillary Clinton na altura dos acontecimentos que levaram sua então chefe a convencer o Conselho de Segurança (CS) das Nações Unidas contra a proposta brasileiro-turca. Slaughter justifica a ação dos EUA reafirmando que o acordo alcançado por Brasil, Turquia e Irã era manobra iraniana para neutralizar uma nova rodada de sanções que o CS adotou no início de junho. Na época, ela conta, Washington "chamou a atenção, corretamente, para o fato de que Teerã não se estava comprometendo a parar o enriquecimento (de urânio) (...) e deixou claro seu desagrado a Ancara e Brasília". A ex-conselheira de Hillary constata, no entanto, que com o fracasso da proposta brasileiro-turca "o programa nuclear iraniano continuou". E conclui com uma elegante autocrítica: "O que se perdeu foi a oportunidade de se estabelecer o precedente de manter combustível (nuclear) iraniano fora do Irã e de se trabalhar num quadro mais cooperativo do que coercivo que teria permitido ao Irã salvar a cara".

A conclusão de Slaughter é o segundo aspecto significativo de sua análise, por uma razão: ela não é nova. Dias depois de o CS da ONU ter imposto a quarta rodada de sanções ao Irã, com votos contrários do Brasil e da Turquia, importantes figuras do establishment em Washington lamentaram que não se tivesse dado uma chance ao entendimento negociado por Lula e Erdogan. "Se adotada, essa proposta teria iniciado o processo para lidar com um importante - mas não o único - aspecto da difícil relação entre o Irã e a comunidade internacional, e representaria um primeiro passo a sustar o progresso do Irã para adquirir capacidade em armas nucleares", escreveram o ex-subsecretário de Estado Thomas Pickering e o ex-inspetor-chefe de Armas dos EUA David A. Kay, entre outros. Na declaração, eles conclamaram o Grupo de Viena (Rússia, França, EUA e AIEA) a "considerar seriamente a proposta (turco-brasileira) como uma abertura para um maior engajamento com o Irã em preocupantes questões pendentes". Os signatários aconselharam os membros permanentes do CS mais a Alemanha a verem o acordo Brasil-Turquia-Irã como "o primeiro passo de um diálogo mais amplo que poderia incluir medidas de construção de confiança, como suspender o enriquecimento de urânio acima de 5%, assim como a resolução de questões de segurança regional, a proteção dos direitos humanos no Irã e outros temas de interesse mútuo".

O mal-estar que o episódio iraniano deixou nas relações dos EUA com o Brasil e a Turquia foi superado. No caso do Brasil, a viagem que o presidente Barack Obama fez ao País em março, num gesto muito apreciado por Dilma, reabriu espaço para um diálogo mais produtivo entre os dois países. As dificuldades momentâneas criadas entre Washington e Ancara também foram resolvidas pela forte aproximação entre Obama e Erdogan desde então e pelo reconhecimento pelos EUA dos interesses que os dois países compartilham num Oriente Médio em transformação.

Deveria Dilma acatar a sugestão de Slaughter e oferecer os bons ofícios da diplomacia brasileira? Os preparativos da viagem que a presidente brasileira fará a Washington em março de 2012 são uma boa oportunidade para os dois governos refletirem sobre a pergunta de Slaughter. Por temerária que possa soar, a melhor resposta é sim, contanto que Washington aceite que a diplomacia é a única saída e Brasília tenha aprendido com os erros que cometeu na bem-intencionada, mas mal executada tentativa de mediação com o Irã. O primeiro foi acreditar que, tendo recebido incentivo de Obama para levar adiante o entendimento, poderia ter sucesso limitando as consultas com os membros permanentes do CS. O segundo - infantil - foi celebrar vitória antes de tê-la assegurado.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.