Brasil, fonte de dólares

A Argentina precisa de dólares, enquanto procura reconquistar o acesso ao mercado financeiro internacional, e o Brasil pode ser parte da solução. Por isso, o governo brasileiro deve entrar com dólares, não com reais, no acordo de swap, isto é, de troca de moedas, anunciado no dia 19 pelo ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, e pelo ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega. Formalmente, as autoridades brasileiras assumiram o compromisso de pôr à disposição do governo argentino R$ 3,5 bilhões, em troca de 7 bilhões de pesos. Esse acordo, segundo Mantega, seria um passo para fortalecer o comércio entre os dois países. Entendimento semelhante, acrescentou o ministro, foi estabelecido entre os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos, o Federal Reserve. O acerto envolveu recursos de US$ 30 bilhões do lado americano e montante equivalente em reais do lado brasileiro.Mas o acerto entre Mantega e Boudou é um tanto diferente e envolve, para o lado brasileiro, um compromisso especial. Para cumprir o prometido, a autoridade brasileira terá de comprar os dólares para entregá-los ao governo argentino. A operação, se for concretizada, servirá não para ampliar o comércio bilateral, mas para reforçar as reservas internacionais do país vizinho. Exportadores e importadores dos dois países não precisariam de mais essa iniciativa para negociar com as moedas nacionais. Já dispunham de autorização para isso e até agora, de fato, poucos recorreram a essa forma de pagamento. De um e de outro lado, a maior procura é por dólares, porque o intercâmbio bilateral, embora importante, é apenas parte da atividade dos empresários. Na prática, a operação de swap foi concebida como um empréstimo. O governo brasileiro chegou a mencionar a hipótese de acordos semelhantes com os demais países do Mercosul e com a Bolívia, também com a justificativa de facilitar o comércio. Deve ter sido retórica de ocasião, porque a troca de moedas com a Argentina envolve pesos e dólares, e não reais, e sua finalidade não é comercial. Do ponto de vista argentino, o benefício de uma operação desse tipo é claro. Desde o calote na dívida externa, há quase oito anos, o mercado financeiro internacional praticamente se fechou para o Estado argentino. Houve uma negociação parcial com os credores privados e milhares de investidores ficaram fora de qualquer acordo. Além disso, o país ficou em situação muito difícil perante os governos credores (o Clube de Paris) e marginalizado no FMI e no Banco Mundial. O governo argentino agora procura percorrer o caminho de volta, fazendo o possível para não renegar todas as bravatas dos últimos anos. Na sexta-feira, o Ministério da Economia iniciou a troca de títulos até agora corrigidos com base na inflação medida pelo instituto oficial de estatísticas. O vencimento da maior parte desses papéis deve ocorrer em 2010 e 2011. A ideia é trocá-los por bônus de prazo mais longo. Mas a operação envolve um detalhe politicamente muito importante: será adotada uma nova forma de atualização e os índices do Indec, sem a mínima credibilidade, serão postos de lado. Amado Boudou tem agido, até agora, como se a sua missão fosse muito mais ambiciosa do que simplesmente continuar a administração fiscal dos últimos anos. Entre seus objetivos se inclui a normalização de relações com o FMI. Ele conversou nos últimos dias com o diretor do Fundo para o Hemisfério Ocidental, o chileno Nicolás Eyzaguirre, e o encontro parece ter sido promissor. Novo contato deverá ocorrer em setembro, na próxima reunião de ministros do Grupo dos 20. Com o peculiar acordo de swap, o Brasil deve reforçar a segurança financeira argentina enquanto as autoridades de Buenos Aires tentam o retorno ao mercado e a normalização de relações com o FMI. Neste momento, é especialmente importante para o governo argentino afirmar sua capacidade de pagar os débitos em 2010. Toda ajuda é importante e a presidente Cristina Kirchner já não tem a segurança dos petrodólares venezuelanos. O presidente Lula assume o papel desempenhado até recentemente pelo companheiro Hugo Chávez. E o faz sem expectativa de obter, em troca, sequer uma redução do protecionismo comercial argentino. Da perspectiva de Buenos Aires, a indústria brasileira merece tanta consideração quanto a chinesa. Mercosul é para isso.

, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

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