Brasil na rabeira do mundo

O Brasil está pronto para um novo ciclo de crescimento, insistem a presidente Dilma Rousseff e seu ministro provisório da Fazenda, Guido Mantega, demitido, mas ainda sem baixa na carteira. Falta avisar o pessoal da indústria, do mercado financeiro e das entidades internacionais. Fora do mundo mágico do governo brasileiro, as expectativas são muito menos otimistas. O crescimento ficará em 0,33% neste ano e 1,04% no próximo, segundo a última pesquisa do Banco Central (BC) entre economistas de instituições financeiras e de consultorias. A projeção para 2014 foi reduzida pela 16.ª semana consecutiva. Foram cortadas também as estimativas elaboradas pelos técnicos da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O número calculado para 2014 passou de 1,8% para 0,3%. O previsto para 2015 foi de 2,2% para 1,4%. As expectativas agora revistas haviam sido publicadas em maio.

O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2014 | 02h04

Na semana passada a Moody's, uma das principais agências de classificação de risco, anunciou uma possível piora da nota de crédito do Brasil, nos próximos meses. A nota foi por enquanto mantida, mas a perspectiva foi rebaixada de estável para negativa. O baixo crescimento da atividade, com perspectiva de estagnação prolongada, foi incluído entre as explicações da reavaliação. A Confederação Nacional da Indústria já havia alterado de 1,8% para 1% o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) esperado para 2014. Para o produto industrial foi apontada uma contração de 0,5%. Pelo cenário anterior, de março, haveria uma expansão de 1,7%.

Na última pesquisa conduzida no mercado pelo BC, publicada nessa segunda-feira, a mediana das projeções para o produto da indústria foi igual à da semana anterior, uma redução de 1,98%. Quatro semanas antes a previsão, já negativa, indicava uma diminuição de 1,76%.

As novas estimativas da OCDE para o Brasil foram publicadas juntamente com uma revisão geral das projeções para a economia mundial. O cenário é menos positivo que o do relatório anterior, divulgado em maio, mas a análise aponta a continuidade da recuperação global. O ritmo geral é moderado e as perspectivas são desiguais entre regiões, mas o Brasil se destaca entre os países com piores perspectivas.

Segundo as novas estimativas, a economia americana crescerá 2,1% neste ano e 3,1% no próximo. O número calculado para este ano corresponde a sete vezes o estimado para o Brasil. O previsto para 2015 é mais que o dobro do esperado para a economia brasileira.

A projeção geral para a zona do euro indica expansão de 0,8% em 2014 e 1,1% para 2015. A maior e mais sólida economia da área, a alemã, continuará com desempenho acima da média, com crescimento de 1,5% em cada um dos dois anos. Na União Europeia, mas fora da zona do euro, o destaque principal é o Reino Unido, com crescimento estimado de 3,1% em 2014 e 2,8% em 2015.

O desempenho brasileiro fica ainda mais miserável quando comparado com o de outros emergentes. Os novos cálculos apontam expansão, neste ano e no próximo, de 7,4% e 7,3% para a China e de 5,7% e 5,9% para a Índia. Outros latino-americanos, dentro e fora da OCDE, também devem exibir números melhores que os do Brasil, nestes dois anos, apesar de alguma desaceleração. Ao explicar a piora das estimativas para o Brasil, o pessoal da OCDE mencionou o baixo investimento. Crescimento a longo prazo, sabem esses economistas, só com investimento e ganhos de produtividade. As autoridades brasileiras continuam dando prioridade ao consumo.

O governo brasileiro continua atribuindo as dificuldades nacionais aos problemas da economia global, mas o ministro provisório da Fazenda tem acrescentado um novo fator, a alta de juros e a piora das condições internas de crédito. O BC, portanto, também tem parte da culpa. Na falta de algo melhor para dizer, o ministro em exercício prometeu: o crescimento anual médio do Brasil, entre 2008 e 2014, ficará entre 2,7% e 2,8%. E algum governo de grande país em desenvolvimento, como o Brasil, pode orgulhar-se desse resultado?

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