Brasil, objeto ou sujeito da História?

Com razão os brasileiros estão irados com o excessivo alcance do poderio americano, como testemunhado no recente escândalo da NSA. Para conter as aparentemente intermináveis práticas de espionagem dos EUA, a chanceler alemã, Angela Merkel, e Dilma Rousseff estão certas em liderar um movimento internacional que as restrinja.

Stephan Richter e Uwe Bott*, O Estado de S.Paulo

06 Novembro 2013 | 02h16

Mas o Brasil tem de fazer mais. O País precisa de uma estratégia global proativa, não só reativa. O foco de sua reinvenção deve ser eliminar a tendência a se fechar em esplêndido isolamento. Isso levou a um caso grave de interminável introspecção e lutas políticas internas sem fim. E nada disso tem utilidade na arena global. Na verdade, tais tendências são autodestrutivas.

Se alguma vez houve uma clara oportunidade para um novo começo, ela foi proporcionada pelo escândalo da NSA. O Brasil deve usar esse incidente de forma construtiva, com visão de futuro, de molde a desenvolver uma séria estratégia global para o País. Do contrário, continuará a ser visto como objeto, e não sujeito da História moderna e uma de suas principais forças motrizes.

Pela primeira vez as chances de isso ocorrer não são ruins. O escândalo conseguiu algo historicamente raro no Brasil: uniu brasileiros consternados de todas as correntes partidárias. Tal união não existia no passado, embora as reformas econômicas nos governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e agora Dilma, ao longo de cerca de 20 anos, tenham quase quintuplicado o PIB nominal do País em dólares. Enquanto o Brasil se tornava uma das maiores economias do mundo, a hábil política externa do ex-presidente Lula catapultava o País ao palco mundial.

Na época o País tornou-se o queridinho dos mercados financeiros globais, em especial nos EUA. Mas já havia alguns sinais ameaçadores no horizonte. O amadurecimento político do Brasil não foi tão bem recebido em Washington.

O mal-estar eclodiu abertamente quando a economia brasileira começou a desacelerar em 2012. Os mercados financeiros, sempre instáveis e rápidos no gatilho, logo levantaram dúvidas sobre muitas das principais realizações econômicas brasileiras. Convenientemente, a crise econômica também foi usada por outras forças como uma oportunidade para refrear a crescente influência política do Brasil. Por isso não é nenhuma surpresa que esteja em curso uma verdadeira campanha para fazer o País cair em descrédito.

Sem dúvida, o Brasil enfrenta enormes desafios com a corrupção, na educação, no sistema de saúde e na infraestrutura. E os brasileiros têm plena consciência desses problemas, como evidenciado nas recentes manifestações de rua. No entanto, como que para expiar o entusiasmo anterior, os mercados financeiros parecem agora focados apenas nos aspectos negativos. Enquanto isso, não reconhecem o substancial progresso que o Brasil tem feito não só em termos de reforma econômica, mas também na redução de suas crônicas desigualdades sociais.

Como os brasileiros bem sabem, programas como o Bolsa Família, de Lula, e o Brasil Sem Miséria deram um grande passo no combate à pobreza. Mas será que o mundo realmente sabe disso? Poderíamos dizer que não, ou, pelo menos, não em toda parte nem perto do suficiente. Como resultado do progresso econômico, da inflação sob controle e dos programas de combate à miséria, a taxa de pobreza caiu. Em contraste, muitos países avançados, notadamente os EUA, têm vivenciado tendência oposta.

A verdadeira tragédia do Brasil, porém, é que parece não entender o grau de desinformação, ou melhor, a falta de informação no exterior, o que faz essas conquistas não serem amplamente reconhecidas. Basicamente voltado para dentro de si mesmo, como a França, o Brasil ainda carece de uma perspectiva internacional ativa. E certamente não tem uma estratégia internacional para lidar com todos os obstáculos postos em seu caminho.

A maioria dos tomadores de decisões brasileiros, como gestores públicos e líderes empresariais, nem se dá conta disso. O que é desconcertante, de vez que se deve presumir que eles teriam a obrigação, ao menos em parte, de zelar pela reputação internacional do seu país. Quer atuem no setor público ou no privado, parece que isso seria do seu próprio interesse.

A realidade, porém, é ainda pior. Em vez de cuidarem com determinação das urgentes questões de reputação global, muitos brasileiros continuam - quase inconcebivelmente - com o que agora deve ser descrito como o segundo maior esporte nacional: brigar entre si.

Para lutar por sua reputação global um país tem de trabalhar substanciais questões-chave. Afinal, nenhuma jogada de efeito pode - ou deve - encobrir falhas fundamentais. Mas um grande interesse em inteligente defesa própria é bem diferente. No entanto, nem ao menos há um amplo debate nacional sobre esse tema no Brasil. Em vez disso, a Nação fica passivamente grudada na TV todo domingo à noite para assistir às revelações de que como, mais uma vez, se torna objeto da arrogância americana.

A ironia disso é considerável. O Brasil, como os EUA, foi dotado de condições muito favoráveis em termos de território e recursos. Nos últimos 20 anos o País também se mostrou capaz de colher os benefícios dessas condições - em vez de continuamente ser ridicularizado como país de "enorme potencial". E tem todos os motivos para se considerar um sujeito da História, como idealmente deveriam todas as nações.

Se o escândalo da NSA tem algum aspecto positivo, com certeza é entendê-lo pelo que realmente significa - um fantástico "toque de reunir" para o Brasil acordar e pôr fim ao seu perigoso sonho feliz e despreocupado no palco global.

*Stephan Richter é publisher e editor-chefe do 'The Globalist' e presidente do The Globalist Research Center.

*Uwe Bott é economista-chefe do The Globalist Research Center.

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