Brasil paga pela Argentina

Depois de engolir sem reação as imposições e cobranças de três ministros argentinos, o governo brasileiro parece mesmo decidido a assumir a responsabilidade pelos problemas da presidente Cristina Kirchner, no ponto mais baixo de sua popularidade, e de vários setores industriais do país vizinho. Se não houver um choque de bom senso em Brasília, a indústria brasileira será forçada mais uma vez a aceitar cotas para vender à Argentina. Além disso, os industriais nacionais ainda terão de dar graças aos céus - ou à diplomacia do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva - por não ter de enfrentar barreiras mais altas no comércio com o principal parceiro do Mercosul. Acostumados a ser postos em segundo lugar pelo governo brasileiro, quando qualquer vizinho decide impor sua vontade, os empresários ainda poderão aceitar a "solução" como se fosse a saída mais prudente e razoável nas circunstâncias de hoje. As cotas poderão afetar as indústrias de geladeiras, de têxteis e de calçados. Esses e outros setores já estão acostumados ao protecionismo argentino, agravado a partir do trimestre final de 2008, e saberão como proceder, se as empresas tiverem de repartir as cotas de exportação. Enquanto nada se resolve, o governo da presidente Cristina Kirchner dá as cartas como quer e comanda o jogo. Exportadores brasileiros ficam na dependência de licenças concedidas de acordo com os critérios e com os objetivos econômicos e políticos da administração argentina, sem ter como reclamar e sem poder exigir o cumprimento dos compromissos próprios de uma área de livre comércio. Nem seria preciso pensar nas obrigações dos países membros de uma união aduaneira. É este - quem diria? - o status oficial do Mercosul. Se o governo brasileiro realmente ceder, não fará nada de novo em termos práticos. Repetirá, simplesmente, sua atitude mais comum quando se trata de problemas comerciais com a Argentina. A justificativa poderá ser parcialmente nova. Por exemplo: a economia argentina tem sido afetada severamente pela crise internacional e o Brasil não pode ficar indiferente a essas dificuldades. Afinal, é um mercado muito importante para os exportadores brasileiros, etc. e tal. Essa conversa é bem conhecida, mas não se aplica a outros mercados também muito importantes, como o americano ou o da União Europeia. Mas o Brasil, sendo a maior economia sul-americana, tem de ser generoso com seus vizinhos, diriam os pregadores e planejadores da fantasiosa diplomacia Sul-Sul. Nessa caricatura de estratégia, o Brasil torna-se responsável pela solução dos problemas criados pelos erros de seus vizinhos. A Argentina perdeu acesso ao mercado financeiro não só por ter dado um calote, mas por haver tratado os credores com truculência. A Rússia entrou em moratória em 1998, mas não declarou guerra a seus financiadores. Sua volta ao mercado foi muito mais fácil. Sem ter jamais adotado uma política fiscal prudente, e sem acesso aos bancos internacionais, o governo argentino passou a depender do presidente Hugo Chávez para rolar a dívida pública. O presidente da Venezuela está hoje atolado em problemas graves, com inflação alta, abastecimento irregular e finanças abaladas pela redução do preço do petróleo. Isso torna ainda mais necessário o socorro brasileiro à Argentina, segundo a diplomacia brasiliense. Mas é preciso acrescentar: confiante no protecionismo e na compreensão do governo brasileiro, a indústria argentina simplesmente não investiu para ampliar e modernizar sua capacidade. Há muito tempo essa indústria se mostra incapaz de concorrer até mesmo no Mercosul. Por isso o governo argentino cria obstáculos às negociações internacionais do Mercosul: o bloco não pode abrir seu mercado de produtos industriais porque o segundo maior sócio não se arrisca a baixar as barreiras. Esse é um dos entraves a um acordo com a União Europeia e foi um dos entraves, no ano passado, ao avanço das negociações da Rodada Doha. Nenhum vizinho ajudou o Brasil a vencer qualquer das muitas crises de sua história econômica. Os brasileiros sempre pagaram a conta dos erros políticos de seus governantes e para isso foram ajudados pelo Fundo Monetário Internacional, pelo Banco Mundial e até pelos credores. Agora têm de pagar pelos erros de outros governos e pela inépcia de empresários estrangeiros.

, O Estadao de S.Paulo

05 de março de 2009 | 00h00

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