Bravatas da jararaca

Escrevo este artigo antes das manifestações marcadas para ontem, dia 13 de março. Espero que tenham sido pacíficas, e não contaminadas por grupos interessados em semear violência para aprisionar os sentimentos da sociedade e inibir protestos democráticos legítimos. O que quer que tenha acontecido, caro leitor, ninguém conseguirá silenciar o grito de indignação do brasileiro honrado e trabalhador, mas profundamente revoltado com a gangue mafiosa que tomou conta do Estado brasileiro.

CARLOS ALBERTO DI FRANCO*, O Estado de S.Paulo

14 Março 2016 | 03h00

Como lembrou recente editorial do jornal O Estado de S. Paulo, Lula entra nessa história sórdida “na condição de poderoso e não de fraco e oprimido perseguido pelos malvados inimigos do povo. Lula está com a polícia em seus calcanhares não porque é um nordestino que nasceu na pobreza e subiu na vida. Lula está nessa triste situação porque deixou que o poder lhe subisse à cabeça, deslumbrou-se com a veneração da massa, com o protagonismo político e com a vassalagem interessada de políticos medíocres, intelectuais ingênuos ou vaidosos e, principalmente, com a bajulação de homens de negócio gananciosos”.

A Operação Aletheia, que levou Lula a depor à Polícia Federal, tem na mira “organização criminosa infiltrada dentro do governo federal que se utilizava da Petrobrás e de outras empresas para financiamento político e também para apropriação pessoal”. Essa “organização criminosa”, segundo o procurador Carlos Fernando Santos Lima, “certamente tem um comando”. Todo o Brasil sabe quem é o chefe da quadrilha.

Lula está aprisionado no labirinto das suas mentiras e do seu cinismo. Briga contra os fatos. Mas a verdade está gritando na seriedade da democracia e no coração dos brasileiros. Sua defensiva conclamação à violência e seu deboche das instituições pegou muito mal. De fato, Lula nada explicou. Nada disse que ajudasse os brasileiros a entender por que recebeu milhões de reais de empresas condenadas por esquemas de corrupção na Petrobrás e de lobistas traficantes de medidas provisórias no seu governo. O mito está derretendo.

E a presidente da República? Dilma Rousseff está agonizando, isolada no seu desligamento da realidade, na sua arrogância, no desgoverno provocado por sua incompetência, enrolada no cipoal de suas mentiras. Delcídio Amaral pôs a boca no trombone. O material divulgado pela revista IstoÉ é explosivo. A ponta do iceberg. Delcídio acusa Dilma e seu padrinho de saberem da existência do petrolão, de agirem para mantê-lo em funcionamento e de atrapalharem a apuração do esquema de corrupção na Petrobrás. Dilma Rousseff é uma peça pequena, quase inexpressiva, de uma engrenagem perversa de perpetuação do poder e de pilhagem do dinheiro público montada pelo ex-presidente Lula e pelo PT. Mas fez a sua parte e deve ser responsabilizada por suas ações.

A máquina lulopetista começa a ranger graças ao excelente trabalho técnico de um jovem magistrado, ao respaldo investigativo da imprensa e ao maciço apoio da sociedade brasileira. Dilma desceu ao fundo do poço. Na prática, ela já não consegue exercer nenhum poder. Há um vazio de governo.

Dilma, de fato, já é passado. E Lula, o criador, escorrega com ela.

O ex-presidente está tenso. Assombra-o, sobretudo, o avanço da Operação Lava Jato. Só isso explica o incitamento à violência, as bravatas e os palavrões da jararaca. Lula está desestabilizado por uma razão muito simples: a mentira se escancarou, a punição se aproxima, a estrela apagou.

A sociedade precisa estar atenta. Vivemos um momento perigoso. Os assaltantes do dinheiro público e os estrategistas do projeto de perpetuação no poder, fortemente atingidos pela solidez das nossas instituições democráticas, não soltarão o osso com facilidade. Farão o diabo para não perder a boquinha. O País está radicalizado por causa da luta de classes tupiniquim do “nós contra eles”. Há riscos no horizonte. Mas precisamos acreditar no Brasil e na capacidade de recuperação da nossa economia. A sociedade amadureceu. O exercício da cidadania rompeu as amarras dos marqueteiros da mentira. A imprensa, o velho e bom jornalismo, está mostrando sua relevância para a sobrevivência da democracia e das liberdades.

Chegou a hora da verdade para governantes e políticos. A sociedade está cansada da empulhação. Os culpados pela esbórnia com o dinheiro público, independentemente da posição que ocupem na cadeia corruptora, devem ser exemplarmente punidos.

E isso não significa, nem de longe, ruptura do processo democrático, golpismo ou incitamento à radicalização.

Lula e Dilma são responsáveis pelo descalabro da Petrobrás. Diante das surpreendentes proporções do esquema de corrupção armado dentro da maior estatal brasileira com o objetivo de carrear recursos para o PT e seus aliados, não surpreende que os dois presidentes da República no poder durante o período em que toda essa lambança foi praticada soubessem perfeitamente o que estava ocorrendo.

Dilma Rousseff foi reeleita legitimamente presidente da República. Isso não significa, por óbvio, admitir barreiras protetoras absurdas ou chancelas de impunidade. Todos, incluídos a atual presidente e seu antecessor, podem e devem ser responsabilizados e punidos por seus atos.

Graças ao papel histórico da imprensa e à legítima pressão da sociedade, o Brasil não será o mesmo. Impõe-se, para isso, que a sociedade, sobretudo a juventude, se vista de verde e amarelo e, saindo às ruas e praças deste Brasil democrático, alegre e tolerante, dê um basta às tentativas, claras e despudoradas, de inauguração do maior bordel político da nossa História. E, ao mesmo tempo, exija mudanças legais profundas que sejam capazes de expurgar a corrupção institucional, que tanto nos envergonha.

* CARLOS ALBERTO DI FRANCO É JORNALISTA. E-MAIL: DIFRANCO@IICS.ORG.BR

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