Brincadeira de mau gosto

Segundo os jornais de Buenos Aires, a presidente argentina, Cristina Kirchner, ficou "furiosa" com a promessa do venezuelano Hugo Chávez ao seu colega Luiz Inácio Lula da Silva de não nacionalizar empresas brasileiras em operação no seu país, embora as estatizações devam prosseguir. Dias antes, ele havia encampado três siderúrgicas argentinas, por sinal do mesmo Grupo Techint que já sofrera na Venezuela uma intervenção do gênero em 2008. A promessa a Lula, feita numa conversa a portas fechadas no encontro em Salvador, na terça-feira, foi captada por microfones inadvertidamente ligados e divulgada pela imprensa. Interpelado em seguida, por telefone, pela presidente Cristina, que exigiu que desmentisse publicamente a sua declaração, Chávez mandou a chancelaria venezuelana divulgar uma nota segundo a qual a frase tinha sido dita "em tom de brincadeira". Broma, em espanhol. Embromação, em português. A presidente fez saber que estava "satisfeita". Claro que não está, nem poderia. Às voltas com uma difícil eleição parlamentar, em 28 de junho, tida como uma prévia do pleito nacional do próximo ano, que poderá apear os Kirchners da Casa Rosada, Cristina considerara as estatizações da semana passada "um ato soberano" do governo de Caracas. Mas essa resignação contrastou com os protestos das maiores entidades empresariais do país e da própria CGT, a poderosa central sindical argentina, que agora exigem que a Casa Rosada se oponha ao ingresso da Venezuela no Mercosul. Decerto, para se mostrar desta vez mais valente na defesa dos interesses nacionais, antes de inquirir o interlocutor sobre as garantias dadas a Lula, ela atacou: "Essa afirmação, se existiu, implica um grau de discriminação que ultrapassa a soberania de cada Estado." A investida não tem pé nem cabeça: quem pode o mais (estatizar) pode o menos (estatizar seletivamente).A fúria de Cristina com quem a dinastia Kirchner sempre se mostrou submissa não significa que ela tenha se cansado dos bolivarianismos do muy amigo. É como se tivesse estrilado: encampe as nossas empresas, se quiser, mas onde já se viu poupar as do Brasil? Ou seja, ela se voltou contra o país que é o polo passivo da pendenga - o que não é propriamente engraçado. O Planalto nunca reclamou de Chávez ter aplicado 9,2 bilhões dos petrodólares venezuelanos em títulos encalhados da dívida pública portenha. E, se as firmas brasileiras de fato estiverem a salvo do cutelo chavista, não será apenas, ou principalmente, porque o coronel tema se indispor com o presidente Lula. Quando, há poucos anos, ele deu de mudar as regras da exploração do petróleo na Bacia do Orenoco, a Petrobrás perdeu sua concessão - e ficou por isso mesmo. A verdade é que, hoje em dia, como observa o ex-secretário de Comércio da Argentina Raúl Ochoa, as empresas brasileiras estão começando a fazer grandes investimentos na Venezuela - devem ser as únicas das quais se possa dizer isso -, ao passo que as portenhas já o fizeram tempos atrás, tendo perdido, portanto, a principal serventia. De qualquer modo, a alegação de Chávez de que estava brincando com Lula o equipara ao brasileiro quando, na mesma reunião, este lhe disse, desprevenidamente - a propósito do acordo que não sai entre a Petrobrás e a venezuelana PDVSA para a construção de uma refinaria em Pernambuco -, que se conseguir eleger, como sua sucessora, a ministra Dilma Rousseff, "vou ser presidente da Petrobrás". E arrematou, dirigindo-se ao titular da estatal, Sérgio Gabrielli: "Você vai ser meu assessor e o acordo vai sair."Pelo visto, fazendo reviver antigos juízos sobre a pouca propensão para a seriedade dos dirigentes desta parte do mundo, Lula e Chávez parecem ter se comportado em Salvador como se estivessem disputando um concurso humorístico. Enquanto permanecerem no terreno da galhofa, menos mal. Mas a realidade é que, pelo menos na Venezuela, as coisas não são de fazer rir. O caudilho histriônico que pretende ocupar até o fim de seus dias o Palácio Miraflores não brinca em serviço quando trata de garrotear a liberdade de seus desafortunados concidadãos. Na quarta-feira, o escritor peruano Mario Vargas Llosa, de passagem por Caracas, foi advertido no aeroporto, onde o retiveram durante hora e meia, que estrangeiros não têm o direito de falar de política na Venezuela. Se depender de Chávez, nem os nacionais - a não ser para louvar a sua ditadura em acelerado processo de "aperfeiçoamento".

, O Estadao de S.Paulo

29 de maio de 2009 | 00h00

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