Buscando o fundo do poço

A recessão produzida pelo governo da presidente Dilma Rousseff continuou no primeiro trimestre, quando o Produto Interno Bruto (PIB) foi 0,3% menor que nos três meses finais de 2015 e 5,4% inferior ao de um ano antes. O fundo do poço está próximo, segundo os comentários mais otimistas, e na segunda metade do ano a economia deverá estabilizar-se. Os mais animados passaram a projetar uma contração de 3% em 2016. Os demais ainda apostam num resultado mais parecido com o do ano passado, quando a produção encolheu 3,8%. Ainda é necessária alguma ousadia para qualquer prognóstico de crescimento em 2017. Se depender do consumo das famílias, ainda é muito cedo para prever o primeiro impulso, porque os últimos dados mostraram 11,4 milhões de desempregados e uma severa contração da renda dos trabalhadores. Ainda se demite e a desocupação poderá passar de 12% até o fim do ano, de acordo com as últimas avaliações do mercado. Quem terá disposição para voltar às compras, enquanto houver tanta insegurança econômica e a incerteza política perdurar?

O Estado de S. Paulo

02 Junho 2016 | 03h00

O empurrão inicial dependerá principalmente do jogo político em Brasília. Se o governo interino tiver condições para começar o ajuste das contas públicas e para mover o programa de reformas, a confiança de empresários e investidores será reanimada. A retomada inicial também será favorecida se for reiniciado com sucesso o programa de concessões de infraestrutura.

Como há muita capacidade ociosa, a reativação da economia poderá ocorrer sem muita dificuldade na primeira etapa. De janeiro a março, a indústria de transformação produziu 0,3% menos que nos últimos três meses do ano passado. Foi o sexto trimestre consecutivo de recuo. A produção do setor, no trimestre inicial de 2016, foi 10,5% inferior à de um ano antes. Incluídos os demais segmentos da indústria, como o de extração mineral, a queda em relação a janeiro-março de 2015 foi de 7,3%.

Mas o retorno ao crescimento durável só será possível com investimento bem maior em máquinas, equipamentos, obras de infraestrutura e outros tipos de construção – sem mencionar o entrave representado pelo baixo preparo da maior parte da mão de obra.

No primeiro trimestre, o investimento em capital fixo (máquinas, construções, etc.) foi 17,5% menor que nos três meses iniciais do ano passado. Como a formação de capital diminuiu bem mais que o conjunto da atividade, a relação entre o valor investido e o PIB caiu para 16,9%. Um ano antes estava em 19,5%, muito abaixo do nível necessário para sustentar o crescimento e bem inferior aos valores observados no mundo emergente (frequentemente acima de 30%).

Investimento maior dependerá do aumento da poupança do governo e da criação de condições para o fortalecimento das empresas. Do lado oficial, será preciso arrumar as contas públicas, elevar a eficiência do gasto do governo e rever as condições de parceria entre os setores público e privado. Implantar padrões profissionais de administração nas grandes estatais será indispensável. Do lado das empresas privadas, será necessário melhorar as condições de financiamento, eliminar o protecionismo e reduzir entraves burocráticos e fiscais. Será indispensável rever os critérios do BNDES e abandonar, por exemplo, a política de campeões nacionais.

Enquanto o IBGE divulgava as contas nacionais do primeiro trimestre, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) publicava suas novas projeções para a economia global. As estimativas para o Brasil pioraram: a contração econômica prevista passou de 4% para 4,3%, principalmente por causa da incerteza política agravada pelos desdobramentos dos casos de corrupção. As saídas apontadas passam, naturalmente, pela arrumação fiscal e por amplas mudanças para aumento da produtividade. O oposto, em suma, da fórmula seguida pela administração petista até o grande desastre: combinação de populismo, incompetência e de muitas façanhas do tipo mostrado na Operação Lava Jato.

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