Cacoete autoritário

Não seria exagero considerar que Fernando Haddad fala hoje pelo partido e por Lula – e, nesse sentido, não decepciona

O Estado de S.Paulo

30 Julho 2018 | 03h00

O petista Fernando Haddad deu várias entrevistas nos últimos dias apresentando-se como “coordenador do programa de governo do PT”. É também, como se sabe, cotado para ser o candidato do partido nas eleições presidenciais, já que o dono do PT, Lula da Silva, provavelmente não poderá concorrer porque está condenado e preso. Logo, não seria exagero considerar que o ex-prefeito de São Paulo fala hoje pelo partido e por Lula – e, nesse sentido, não decepciona.

De suas declarações emerge o pensamento autoritário que tão bem caracteriza o PT e seu demiurgo encarcerado, para quem só é democrático quem defende o partido, só é virtuoso quem comunga com seu ideário e só é digno de respeito quem considera Lula da Silva o mais inocente dos homens sobre a face da Terra – “só Jesus ganha de mim”, chegou a dizer o chefão petista antes de ir para o xilindró.

À Folha de S.Paulo, Haddad disse que “a elite é majoritariamente atrasada” e que os empresários “precisam ser educados para a democracia”. É claro que o ex-prefeito fazia referência aos empresários que não declaram voto no PT. Já os “muitos amigos” que Haddad diz ter no empresariado, estes sim, “são modernos, querem o bem do País, entendem que o caminho é combater a desigualdade e a exclusão, é promover direitos”. Provavelmente Haddad estava se referindo aos empresários que ganharam muito dinheiro com os generosos incentivos dados pelos governos de Lula da Silva e de Dilma Rousseff para criar “campeões nacionais”, política que acabou concentrando ainda mais a renda nas mãos de uns poucos “amigos”, deixando à míngua os pobres, pendurados em “direitos” que só existem no papel.

O cacoete autoritário se manifesta sem nenhuma afetação, pois é da natureza do partido. Quando prefeito de São Paulo, Haddad disse que se considerava “um agente da civilização contra a barbárie”. O eleitor, contudo, não entendeu dessa forma, e Haddad foi derrotado em todas as zonas eleitorais da capital paulista, mesmo nas mais distantes do centro, na disputa para se manter no cargo, em 2016. O problema, na concepção petista expressa por Haddad, é que o eleitorado talvez não esteja pronto para tanta “modernidade”.

De fato, é difícil entender onde está a “modernidade” quando o partido que proclama ser seu maior veículo é o mesmo que se uniu ao que havia de mais atrasado na política brasileira com o único objetivo de chegar ao poder e nele permanecer o maior tempo possível. Também é difícil considerar “moderno” um partido que se transformou em uma seita, cujos integrantes adoram Lula. “As pessoas não veem o Lula. As pessoas sentem o Lula”, disse Haddad na entrevista em que se queixou do “atraso” dos que insistem em não votar no PT. Não pareceu ao ex-prefeito que atrasado mesmo talvez seja um líder cuja popularidade se concentra justamente entre os pobres e desinformados que se sentem gratos pelas migalhas do Bolsa Família, programa assistencialista que Lula escandalosamente, à moda dos antigos coronéis, usou e ainda usa para ganhar votos.

Mas é claro que Haddad, como protótipo do bom petista, jamais se importaria com contradições como essas e outras – como, por exemplo, quando ele declara que o “centrão” é o “atraso”, embora aquele condomínio de partidos fisiológicos tenha sido o esteio dos governos de Lula e de Dilma, gestões que, de acordo com a concepção do ex-prefeito, certamente eram muito “modernas”.

Haddad critica a parte da sociedade que, “desinformada”, se sente “seduzida por um discurso fácil e tosco” do candidato extremista Jair Bolsonaro, enquanto o próprio ex-prefeito apoia apaixonadamente um demagogo cujo discurso, há décadas, pode ser igualmente classificado de “fácil e tosco” – especialmente quando oferece soluções mágicas para os problemas complexos e quando estimula o ódio contra os que teimam em não gostar do PT.

De tudo isso, pode-se dizer que Haddad está certo ao sugerir que há muitos no País que precisam ser “educados para a democracia” – a começar pelos petistas.

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