Cadê Você

Por sua inteligência, sensibilidade social, reconhecimento de que, no apoio prestado a pessoas portadoras de deficiência, tão importante quanto a assistência médica, o oferecimento de remédios e o tratamento específico é o estímulo à autoestima do deficiente, a sensação de que ele tem papel importante na sociedade - além de estar recebendo o que lhe é de direito -, o projeto Cadê Você, promovido pelo Instituto Mara Gabrilli (IMG), não só é inédito, como uma das mais alentadoras iniciativas já promovidas nesse setor.

MAURO CHAVES, O Estado de S.Paulo

29 Janeiro 2011 | 00h00

Esse projeto, que tem por escopo localizar pessoas deficientes que moram em comunidades carentes da capital paulista, ir até elas para oferecer orientações multidisciplinares e orientar quanto aos serviços públicos disponíveis, se baseia numa dura realidade sobre a qual ninguém até agora tem refletido.

No Brasil, segundo o Censo de 2000 (IBGE), 14,5% da população tem algum tipo de deficiência. Isso, em números atualizados, corresponde a cerca de 24 milhões de brasileiros. É um universo de pessoas que podem haver nascido com alguma deficiência ou tê-la adquirido ao longo da vida. E quando se fala de ações que melhorem a qualidade de vida dessas pessoas também são incluídos os que têm mobilidade reduzida, como idosos, gestantes, obesos, mulheres com carrinho de bebê e outros.

Com o patrocínio do Mc Donald"s, da Alcoa e da Volkswagen e o apoio da ONG Casa do Cristo Redentor, o projeto também contempla visitas de atendimento domiciliar a pessoas com deficiência severa, que não podem sair de casa. O mutirão é feito uma vez por mês, cada dia num bairro diferente, até outubro de 2012, estimando alcançar nesse período 1,2 mil pessoas com deficiência, na capital. A agenda para os próximo mutirões está sendo definida. "Dentro de alguns meses teremos um precioso mapeamento da situação dessas pessoas, que permitirá a criação de políticas públicas mais focadas e com melhores resultados", diz a fundadora do IMG, Mara Gabrilli. "Hoje são escassos os dados sobre essa população, que é significativa e precisa de atenção especializada. Com uma informação precisa em nossas mãos teremos uma força ainda maior para cobrar providências do poder público em relação às pessoas com deficiência", completa Mara, referindo-se ao 1,5 milhão de pessoas com deficiência na capital.

No local, além das consultas, também são prestados os seguintes serviços:

Saúde - Distribuição de cartilhas, material didático sobre os cuidados com a saúde da pessoa com deficiência; informação sobre instituições, postos de saúde e centros de reabilitação existentes na cidade de São Paulo.

Transporte - Informação sobre o Serviço de Atendimento Especial (Atende), linhas de ônibus adaptados, terminais acessíveis, carteira especial, carteira de acompanhante, carteira de idoso.

Trabalho - Informação sobre o direito à aposentadoria da pessoa com deficiência, sobre lei de cotas e sobre o Centro Cidadão.

Social - Informação sobre benefícios sociais, isenção de impostos e garantias específicas para pessoas com deficiência. Também será feito um registro fotográfico das pessoas em seus bairros, em parceria com a fotógrafa Renata Castello Branco.

Essas pessoas são "encontradas previamente através de cadastros nas ONGs parceiras dos projetos, demandas espontâneas e da ação dos funcionários do McDonald"s dos bairros. As solicitações para atendimentos domiciliares e participação nos mutirões também são feitas através do cadastro no site www.cadevoce.info. A ideia é achar essas pessoas, daí o nome do projeto. Muitas delas não têm ideia de seus direitos, de que há serviços públicos de reabilitação, por exemplo. Estamos constatando isso na pratica, in loco", explica Ariana Chediak, coordenadora do projeto. Muitas vezes essas pessoas são "escondidas" por seus familiares e têm de viver em dolorosa solidão, totalmente afastadas de seu meio social em razão de grande preconceito.

Sugeri a Mara Gabrilli a mobilização de alunos de colégios, numa saudável competição - daquelas que os estudantes das melhores escolas realizam -, para uma demonstração de eficiência, solidariedade e tomada de conhecimento de uma realidade por eles muitas vezes ignorada. Isso consistiria na organização de grupos de estudantes que possam ajudar na formação do cadastro das pessoas com deficiência nas favelas e comunidades carentes da periferia. Seria uma contribuição valiosa, tanto material quanto moral, para o projeto Cadê Você.

A recém-eleita deputada federal Mara Gabrilli, pelo que vem realizando em seu instituto, já tem desenvolvido, como vereadora e presidente do IMG, um trabalho de comunicação de grande sucesso e com ideias originais, com o objetivo de explicar a melhor forma de se comunicar com pessoas deficientes, sejam visuais, sejam auditivas, sejam cadeirantes e as demais pessoas com restrições de mobilidade temporária ou permanente, assim como qualquer outro tipo de deficiência, para evitar qualquer humilhação que possam sentir pelo tratamento que lhes é dado pelas demais pessoas. Assim, Mara dispõe de toda a credibilidade para promover uma iniciativa tão importante como essa.

Ela foi responsável pelo aumento da frota dos ônibus com facilitação para pessoas com deficiência, pela acessibilidade nas vias públicas, como na Avenida Paulista, bem como de livros importantíssimos - com informações não antes divulgadas sobre a melhor maneira de tratar uma pessoa com deficiência. Por exemplo, ninguém deve empurrar um cadeirante sem que ele previamente o autorize; não tem o menor sentido o garçom que atende uma pessoa cega, com acompanhante, num restaurante, dirigir-se apenas ao acompanhante, como se o cego não ouvisse. E também é uma humilhação para a pessoa com deficiência falar-lhe em tom alto e bem explicadinho, como se a pessoa com deficiência fosse sempre também deficiente mental.

JORNALISTA, ADVOGADO, ESCRITOR,ADMINISTRADOR DE EMPRESAS E PINTOR. E-MAIL: MAURO.CHAVES@ATTGLOBAL.NET

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