Cai o pessimismo, fica a incerteza

Enquanto se esperam os efeitos dessas ações planejadas para incentivar os negócios, empresários e consumidores, embora menos pessimistas, continuarão hesitantes, à espera de melhores notícias sobre emprego e renda

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23 Fevereiro 2017 | 03h03

O pessimismo pode ter diminuído entre consumidores e empresários, mas a insegurança continua pesando em sua avaliação do futuro, como indicam pesquisas de várias entidades independentes. A incerteza ainda afeta as decisões de consumo das famílias e os planos empresariais de contratação de pessoal, de aumento da produção e, é claro, de novos investimentos na capacidade produtiva. O presidente Michel Temer e sua equipe fixaram objetivos importantes e passaram ao mercado a imagem de um governo comprometido com uma pauta de correções e de reformas. Já conseguiram alguns avanços, mas têm de fazer mais para converter o menor pessimismo em segurança quanto à política oficial e à evolução dos negócios e das condições de vida.

A inflação em queda e os sinais de melhora do crédito parecem estar contribuindo para a melhor disposição dos consumidores, ou de uma parte deles, de acordo com a sondagem da Fundação Getúlio Vargas (FGV) divulgada ontem. Em fevereiro o Índice de Confiança do Consumidor subiu para 81,8 pontos, o maior nível desde o fim de 2014. Mas a alta de 2,5 pontos em relação ao nível de janeiro, observada para o conjunto de respostas, oculta uma diferença importante.

Houve queda no caso dos consumidores das duas faixas inferiores de renda – até R$ 2.100 e entre R$ 2.100 e R$ 4.800. O recuo foi de 2 pontos na primeira faixa e de 0,2 ponto na segunda. No terceiro grupo, de R$ 4.800 a R$ 9.600, houve acréscimo de 4,4 pontos. Na categoria mais alta, acima de R$ 9.600, o aumento foi de 2,2 pontos. Este último grupo atingiu 87,1 pontos, o mais alto nível de confiança desde outubro de 2014. Mas também esses consumidores, apesar do ganho de confiança, continuaram abaixo da linha de indiferença: o otimismo só começa a partir da soma de 100 pontos.

Para o conjunto, o índice de situação atual chegou a 70,3 pontos e o de expectativas, a 90,6 pontos – os dois ainda abaixo do padrão de otimismo. A intenção de compras de bens duráveis passou de 69,4 para 73,3 pontos, num avanço insuficiente para a superação da insegurança. O panorama provavelmente só mudará quando o mercado de trabalho melhorar, diminuindo a incerteza quanto ao futuro, avaliou a coordenadora da sondagem, Viviane Seda Bittencourt.

A mesma restrição – a insegurança – tem sido observada na pesquisa sobre a confiança do empresário do comércio, produzida mensalmente pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). O indicador subiu 1 ponto de janeiro para fevereiro e bateu em 95,5 pontos, nível 18,6% mais alto que o de um ano antes, mas ainda abaixo da linha de indiferença. As vendas neste ano devem ser melhores que as de 2016, mas a pesquisa, segundo nota da CNC, ainda aponta preocupação quanto ao emprego e à renda dos consumidores.

No setor da construção, um dos mais importantes para a absorção da força de trabalho, a incerteza continua pesando nas decisões, apesar do aumento da confiança e de alguns sinais de otimismo. O índice de expectativas chegou a 50,3 pontos em fevereiro, superando ligeiramente o limiar entre as avaliações negativas e positivas. Mas isso apenas indica a esperança de manutenção do nível de atividade nos próximos meses. A linha de 50 pontos foi alcançada pela primeira vez desde julho de 2014.

As expectativas de novos empreendimentos e serviços, de compra de insumos, de contratações e de investimentos continuam, no entanto, abaixo do nível de indiferença. No caso do aumento de pessoal, a expectativa passou de 45,7 pontos em janeiro para 47,1 em fevereiro, com variação insuficiente, portanto, para eliminar um resíduo de pessimismo. Talvez as novas medidas de estímulo à construção habitacional, anunciadas há poucos dias, possam mudar o cenário. Enquanto se esperam os efeitos dessas e de outras ações planejadas para incentivar os negócios, empresários e consumidores, embora menos pessimistas, continuarão hesitantes, à espera de melhores notícias sobre emprego e renda.

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