Caiu o sistema na Infraero

O PMDB não esperneia porque o irmão e a cunhada do líder do governo no Senado, Romero Jucá, e a ex-mulher do líder do partido na Câmara, Henrique Eduardo Alves, perderam seus empregos na Infraero, como deve acontecer com a imensa maioria da centena de funcionários comissionados da estatal, cujos salários variam de R$ 4 mil a R$ 14 mil. Deles, nada menos de 81 chegaram lá por serem correligionários, amigos ou parentes de políticos de vários partidos. O PMDB decerto protesta porque as demissões privam os padrinhos de algo mais substancioso do que a paga mensal perdida pelos apadrinhados. Numa palavra, oportunidades. A empresa, que administra 67 aeroportos com um orçamento anual de cerca de R$ 1,3 bilhão, é um manancial de contratos de obras e de cessão de espaços nos terminais para publicidade. Empregos como aqueles, portanto, credenciam os seus ocupantes a participar de decisões que envolvem grandes interesses. Quando as coisas saem a seu gosto, a sua comprovada influência acrescenta poder e prestígio aos que os indicaram. Desse mecanismo dependem o patrimônio político dos caciques partidários e o financiamento de suas campanhas eleitorais. É assim que o sistema funciona, mesmo quando os diretamente envolvidos são insuspeitos de ilicitudes no manuseio dos recursos públicos.Eis por que faz sentido a demanda peemedebista por um lugar no grupo da coordenação política do presidente Lula, integrado pelos chamados "ministros da casa", todos eles petistas (salvo o titular da Secretaria de Comunicação do governo, sem filiação partidária). Com acesso assegurado a esse grupo especial de interlocutores do presidente, que com ele se reúne no mínimo uma vez por semana, a legenda poderia, se não impedir que se concretizem decisões lesivas às suas mais caras aspirações, a exemplo do que aconteceu com os cargos na Infraero, ao menos ser indenizada com nomeações também proveitosas em outras áreas da administração.A carta na manga, ou melhor, na mão do PMDB, é evidentemente o seu decantado - quem sabe inflado - cacife para a sucessão de 2010. Diferentemente da maioria dos observadores, que apostam na divisão da sigla entre os candidatos do governo e da oposição, o presidente Lula parece acreditar que os recursos de poder ao seu alcance poderão arrebanhá-la para fazer par com a sua escolhida Dilma Rousseff ou, conforme a evolução do seu estado de saúde, para respaldar um ainda nebuloso "plano B". E disso se valem os cortejados para demandar, sem a menor preocupação de disfarçar os seus apetites, parceria "na construção e elaboração" desse ano e meio de governo que Lula tem pela frente.Descontados os presumíveis interesses que o levaram a se manifestar - ele novamente quer ser "uma alternativa" ao Planalto -, o deputado Ciro Gomes desta vez disse a coisa certa, ao advertir para o risco que correria o presidente se as concessões que fizer ao PMDB incluírem um recuo na decisão de apoiar o afastamento dos protegidos políticos dos quadros da Infraero. "Uma volta aí seria a desmoralização", adverte. De fato, o que está acontecendo na estatal dos aeroportos é algo literalmente excepcional na era Lula. Com o aval do ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o sinal verde do Planalto, o presidente da empresa, brigadeiro Cleonilson Nicácio, implantou na sua estrutura um processo de profissionalização que é a antítese dos padrões dominantes na administração federal.Os 109 cargos em comissão da Infraero (chegaram a ser 240!) serão reduzidos a 12. Isso atinge em cheio o esquema de loteamento que ali prevalecia: dos 109, 81 estavam ocupados por membros de patotas políticas (28 deles já demitidos). E, dos 5 diretores, 4 terão de ser necessariamente funcionários de carreira. A reestruturação, que há pouco menos de um mês se tornou norma estatutária, deixará a estatal em condições de atender aos padrões requeridos das empresas de capital aberto - no que ela poderá se transformar. As pressões por um retrocesso são o cúmulo do descaramento, mas não deixam de ser comensuráveis com o alcance da mudança em curso. Mas não se vê como o presidente possa dar o dito pelo não dito. Se o fizesse, afrontaria o seu ministro da Defesa, o dirigente da empresa - e ainda a corporação dos seus empregados.

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