Caminhamos para o futebol sem torcidas?

Seria impossível imaginar, até aqui, uma situação como esta: uma das maiores torcidas de futebol no Brasil impedida de comparecer ao estádio no último fim de semana e ver o seu time em campo - e só uma pequena parcela de torcedores conseguiu driblar a proibição, com uma decisão na Justiça. Nesse mesmo fim de semana, no Egito, as torcidas dos dois times que se enfrentariam tiveram o acesso proibido ao estádio - e do lado de fora houve pelo menos 22 mortes.

WASHINGTON NOVAES, O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h02

Onde vai parar o futebol, uma das paixões brasileiras, enredado nessa trama em que se misturam dirigentes de clubes e entidades da área, empresários , técnicos e aliciadores de adolescentes promissores - e lá no fim da cadeia os jogadores, mas sem poderem contar com o torcedor, já que nem para gerar renda ele é considerado mais: a importância de público é atribuída às emissoras de televisão, nas quais o interesse maior é que seja vista na tela a propaganda dos patrocinadores; ao torcedor cabe cada vez mais recorrer à Justiça se quiser ir aos estádios. E em alguns destes já se dá até importância, como está sendo noticiado, a sistemas de segurança como a biometria (quem a terá em escala nacional?). Ou a comitês de mães em campo (!).

Não é um panorama novo, mas que se agrava. Já em 2013 o autor destas linhas comentava nesta mesma página (19/10/13) o silêncio absoluto em torno de um episódio como o do jogador Ronaldo na partida em que a França eliminou o Brasil na Copa do Mundo de 1998: após sofrer uma convulsão, perder os sentidos (seu companheiro de quarto, Edmundo, disse que ele "parecia estar morrendo"), ele foi levado para um hospital, saiu horas depois dizendo "de nada" se lembrar, mas ainda assim foi escalado para jogar e nada fez em campo. Mesmo com o torcedor perplexo, os dirigentes nada fizeram para apurar todo o episódio. Nem o técnico e a comissão técnica, nem os sindicatos de atletas, nem os burocratas dos esportes, nem entidades médicas, nem representantes da Justiça, nem do Congresso Nacional. Ficou tudo por isso mesmo, embora se tratasse de algo com profundas implicações na cultura brasileira - o futebol é uma paixão nacional que precisa ser respeitada.

Algum tempo antes, num documentário, a extraordinária atriz Fernanda Montenegro perguntava, ao ver 1 milhão de pessoas chorando e correndo pelas ruas atrás do esquife do presidente eleito e não empossado Tancredo Neves: "Isso não é a cultura de um povo? Um milhão de pessoas, em absoluta ordem, sem nenhum comando, correndo nas ruas de São Paulo atrás de um caixão, para manifestar sua perda e sua dor? Não é isso a cultura de um povo?".

Podia-se dizer o mesmo no caso do futebol - dezenas de milhares de pessoas num estádio, sem comando, gritando de alegria ao ver seu time de coração marcar um gol. Ou nas ruas, cantando e comemorando. Ou discutindo com o amigo ou companheiro de trabalho simpatizante de outro clube. Mas tudo em santa paz.

Agora, tudo é um conflito só - inclusive físico e com armas na mão. Quem mais ousa levar um filho pequeno ao estádio? - e este escriba se lembra de sua infância, quando esse era o sonho de todos os meninos, inclusive dele mesmo, que, emocionado, foi levado ao estádio do Pacaembu por seu pai , no início da década de 1940, para ver a estreia no São Paulo F.C. de Leônidas da Silva.

Mais de 15 anos depois da eliminação do Brasil pela França na Copa de 1998 (Estado, 12/10/13) o técnico Felipão já reclamava por ser obrigado a levar a seleção (que treinava para o campeonato mundial de 2014) para jogar na Coreia do Sul, na Zâmbia e na China (em Pequim), sem nenhum proveito: "O fuso horário é o maior inimigo. A rotina muda, a forma de jogar muda. A coordenação é afetada.". Mas não era ele que decidia, eram os dirigentes da Confederação Brasileira de Futebol, os patrocinadores de comerciais estrelados por Ronaldo. Deu no que deu na Copa de 2014. Mas quem se lembrou dos lamentos de Felipão?

E assim chegamos ao imbróglio de hoje, que caminha a passos rápidos para consolidar um futebol sem torcida - condenada à televisão patrocinada por grandes interesses comerciais. Na qual o noticiário é dominado pelas notícias de transferências de jogadores ditadas por empresários, que criam as regras. Só para o exterior (Europa, China, Japão, Oriente Médio, Estados Unidos) eles já levaram mais de mil atletas brasileiros. As cifras financeiras mencionadas são sempre de embasbacar, embora quase todas fiquem em mãos desses intermediários.

O panorama por aqui começou a mudar para pior já há algumas décadas, quando o supercraque Zico se cansava de dizer aos jornais que não queria ser vendido para um clube italiano, mesmo ganhando uma fortuna. Não queria deixar seu clube de coração desde menino, o Flamengo. Mas não teve saída, derrotado por dirigentes de seu clube e empresários.

Hoje já vivemos a inacreditável situação de um futebol jogado para estádios vazios, com as torcidas restantes impedidas de comparecer pelo medo da violência e diante de decisões administrativas ou judiciais que também criam obstáculos. E vamos num ritmo avassalador. A Justiça, também mergulhada em crises, não dá conta de enfrentar todos os dramas. Até mesmo porque está assoberbada: em 2013 nossos juízes movimentaram "nada menos que 18 milhões de processos" (Estado, 4/2/15), mas no mesmo tempo entraram quase 20 milhões: "O desânimo se torna inevitável (...) Ninguém dá conta de analisar 10 mil ações por ano".

Mas se não for por aí, por onde será? Por diretrizes que venham do Congresso Nacional, que criem regras para essa área e a tirem do lodaçal onde uns poucos ditam o caminho do dinheiro para alguns parceiros? Parece pouco provável que isso aconteça, diante da falta de pressão social nesse âmbito, da passividade de instituições que deveriam ser ativas na área, da impotência das torcidas, paralisadas pela violência que leva a portões fechados.

É muito triste para a cultura brasileira.

*Washington Novaes é jornalista

E-mail: wlrnovaes@uol.com.br

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