Caminho sem volta

O coronel líbio Muamar Kadafi pode ser louco, mas, como se diz, não rasga nota de mil. Menos de um dia depois de o Conselho de Segurança (CS) da ONU aprovar uma resolução que autoriza a adoção de "todas as medidas necessárias" contra o regime de Trípoli, salvo uma invasão do país, o ministro do Exterior da Líbia, Moussa Koussa, convocou a imprensa para anunciar que o governo ordenara "um imediato cessar-fogo e a interrupção de todas as operações militares" contra os rebeldes que demandam a destituição do ditador no poder há 41 anos.

, O Estado de S.Paulo

19 Março 2011 | 00h00

"Considerando que a Líbia é membro da ONU", alegou o diplomata, sem corar, "aceitamos a resolução." O texto, de fato, começa por exigir a cessação imediata dos ataques à população civil, mencionando especificamente os ataques em preparo contra a "capital rebelde", Benghazi. A segunda maior cidade do país, onde há um mês começaram as manifestações pela saída de Kadafi, tornou-se o último reduto da insurreição, depois da fulminante contraofensiva que a desalojou das posições que conquistara a leste de Trípoli.

Enquanto, em Nova York, passava pelas últimas revisões o projeto de resolução cobrado pela França e a Grã-Bretanha, o ditador ameaçava com o fogo dos infernos os opositores concentrados em Benghazi. "Iremos de casa em casa, de quarto em quarto. Encontraremos vocês nos seus armários. Não teremos contemplação nem piedade", trovejou. Aparentemente, portanto, as apaziguadoras declarações do chanceler líbio seriam o primeiro resultado positivo da decisão do Conselho de Segurança de autorizar a intervenção militar.

O ponto mais destacado da resolução é o que estabelece uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia para impedir o uso da aviação de Kadafi contra os revoltosos. O bloqueio pressupõe o bombardeio das defesas que poderiam alvejar os aviões que passarão a patrulhar o país, com ordem de abater os infratores da medida. A França anunciou ontem que seus caças se preparavam para entrar em ação a qualquer momento. Mas, se Kadafi der sinais de acatar as imposições da ONU - para ganhar tempo e se passar por vítima de uma conspiração internacional para tomar o petróleo líbio -, o objetivo último da resolução enfrentará uma turbulência paradoxal.

Pois o que desejam as potências ocidentais, com o apoio sempre calculista da Liga Árabe, é ter motivos para derrubar Kadafi - já que ele se recusou a sair por bem. O uso da força para deter a mão que golpeia a sua própria gente não é um fim em si. A resolução fala em chegar a uma solução que atenda às "legítimas demandas do povo líbio". Há quem seja mais direto. O porta-voz do governo francês, por exemplo, diz que as ações militares autorizadas se destinam a "permitir que os líbios possam ir até o fim para derrubar o regime de Kadafi".

Dito de outro modo, o imperativo moral de dar um basta ao massacre na Líbia se subordina ao imperativo político de acabar com um opressor que se transformou em um estorvo. O que isso custar ao país não parece estar em tela de juízo. Já se viu esse filme no Iraque. O Brasil - que ao lado da Alemanha, Índia, Rússia e China se absteve no Conselho de Segurança - agiu certo ao criticar o texto aprovado por sua amplitude, capaz de "fazer mais mal do que bem", nas palavras da embaixadora na ONU, Maria Luiza Viotti. A intervenção armada na Líbia, se iniciada, será, efetivamente, um longo caminho sem volta cercado de imponderáveis.

Apesar da ressalva expressa no documento, a tentação de um desembarque na área sob controle da oposição será tanto maior quanto mais Kadafi resistir. A primeira vítima será o despertar democrático árabe - que vinha sendo um produto genuinamente caseiro, ou "orgânico", como disse o presidente Barack Obama, antes de ceder à linha dura de Washington. E mais uma vez ficou patente a duplicidade da Grã-Bretanha e da França, cujos dirigentes confraternizavam com Kadafi, ou dele recebiam dinheiro, desde que foi reabilitado pelo Ocidente por se voltar contra a Al-Qaeda, enquanto continuava a torturar e a matar os seus adversários.

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