Capitais voláteis, um aviso

A solidez das contas externas é uma segurança, mas convém dar atenção a sinais de alerta

O Estado de S.Paulo

25 Maio 2018 | 03h00

A solidez das contas externas tem sido um importante fator de segurança para o Brasil desde antes da crise global iniciada em 2008. Reservas de US$ 380 bilhões, um sólido superávit comercial e um bom volume de investimento direto mantêm o País preparado para enfrentar choques cambiais – pelo menos por algum tempo. Mas convém dar atenção a sinais de alerta. Mudanças no quadro financeiro internacional já afetaram o câmbio, nas últimas semanas, provocando uma forte alta do dólar. Por precaução, o Banco Central (BC) interrompeu a redução da taxa básica de juros, mantendo-a, contra a expectativa do mercado, em 6,50%. As pressões parecem ter amainado, mas seus efeitos são agora visíveis também no balanço de pagamentos. O investimento estrangeiro em ações e títulos de renda fixa tem oscilado pelo menos desde dezembro, alternando movimentos sensíveis de entrada e de saída. Sem ser dramático, é mais um sinal de mudança de um panorama internacional até há pouco benigno. Quem tem juízo leva a sério esse tipo de sinal.

Preocupações podem parecer um exagero, quando se examinam os grandes números do balanço de pagamentos. Em abril, houve superávit de US$ 620 milhões nas transações correntes. Essa conta, resumo das transações com o exterior, inclui a balança comercial de mercadorias, conta de serviços e o movimento de entradas e saídas de rendas. O saldo positivo da conta corrente é típico desta fase do ano e em 2017 atingiu US$ 1,15 bilhão.

Em 12 meses, como é normal, as transações correntes ficaram em vermelho, com déficit acumulado de US$ 8,9 bilhões até abril. Esse buraco, equivalente a 0,43% do Produto Interno Bruto (PIB), foi coberto com muita sobra pelo ingresso líquido (entradas menos saídas) de US$ 61,70 bilhões de investimento direto. Esse tipo de aplicação, dirigido ao setor empresarial, é mais seguro e menos especulativo que o capital aplicado em papéis.

O quadro continua tranquilizador em seus traços mais amplos. Conta corrente no vermelho pode favorecer o crescimento da economia, se o capital atraído para a cobertura for usado para ampliar o investimento produtivo. Mas convém manter esse déficit em nível administrável. Em 2014, a conta corrente fechou com saldo negativo de US$ 104,18 bilhões, ou 4,24% do PIB, numa zona bem menos segura que a de hoje.

No Brasil, as contas de serviços e de rendas são normalmente deficitárias. A balança comercial superavitária atenua o desequilíbrio e permite, exceto nas fases muito ruins, manter em zona segura o déficit em transações correntes. Neste ano, até abril, o superávit comercial de US$ 18,49 bilhões, calculado pelo critério do BC, permitiu conter em US$ 2,60 bilhões, ou 0,40% do PIB, o déficit em conta corrente. No mesmo período, o investimento direto equivaleu a 3,11% do PIB.

O cenário parece calmo e as perspectivas, favoráveis, mesmo com as importações crescendo mais rapidamente que as exportações – um sinal da recuperação, embora lenta, da atividade econômica. Também a conta de serviços tem sido afetada pelo aumento das despesas, especialmente no item das viagens ao exterior. Os gastos com viagens poderão perder impulso, por causa da valorização do dólar, enquanto as exportações de bens poderão ser beneficiadas.

Mas a mudança do quadro externo, com a perspectiva de alta mais rápida dos juros americanos, já afeta o mercado de crédito e o movimento internacional de capitais. Um dos efeitos é a valorização do dólar, observada em quase todo o mundo e mais acentuadamente nas economias emergentes. As alterações nos fluxos de capitais, especialmente dos mais especulativos, têm aparecido nas contas brasileiras. Em abril, as aplicações líquidas em ações e outros títulos alcançaram US$ 5,49 bilhões. Em março, tinham saído US$ 7,8 bilhões. Além do dólar, a oscilação do risco Brasil tem pesado nas decisões, como lembrou o chefe do Departamento de Estatísticas do BC, Fernando Rocha. Juros americanos estão fora do alcance dos brasileiros, mas a confiança no futuro do País é basicamente um reflexo da política interna.

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