Capital bom, mas insuficiente

As incertezas geradas pela fragilidade da economia global, pelas oscilações das cotações de alguns dos produtos mais comercializados internacionalmente e por ameaças à estabilidade política em diversas regiões provocaram a redução do fluxo dos investimentos diretos estrangeiros. Nesse cenário de preocupações, o Brasil se saiu menos mal que boa parte dos demais países no ano passado. Embora também para cá o fluxo tenha diminuído, a redução foi menor do que a do total mundial e muito menor do que a redução do volume de investimentos direcionados para a América Latina. Assim, mesmo tendo registrado menor ingresso de capital produtivo, o Brasil conseguiu melhorar sua posição no ranking mundial, tendo ficado na quinta colocação, duas posições acima da classificação obtida em 2013.

O Estado de S.Paulo

02 Fevereiro 2015 | 02h04

O mais recente boletim da Organização das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad) sobre tendências do investimento global mostra que os investimentos diretos estrangeiros caíram de US$ 1,363 trilhão em 2013 para US$ 1,260 trilhão no ano passado, com redução, portanto, de 7,6%. Para a América Latina, a redução foi bem mais acentuada, de 19,5% (de US$ 190 bilhões para US$ 153 bilhões). O fluxo desses capitais para o Brasil caiu bem menos, de US$ 64 bilhões para US$ 62 bilhões, com redução de pouco mais de 3% (os dados utilizados pela Unctad coincidem com os divulgados há pouco pelo Banco Central).

É um desempenho apreciável se comparado com o de outros países. O fluxo de investimentos diretos estrangeiros para os países industrializados, por exemplo, diminuiu 14% no ano passado, por causa do mau desempenho dos Estados Unidos. Já o fluxo de investimentos estrangeiros para a União Europeia, embora tenha sido maior do que em 2013, alcançou apenas um terço do total registrado em 2007.

Poucas regiões receberam mais investimentos em 2014 do que em 2013. Uma delas foi a Ásia, graças à China, que, assim, se tornou o maior receptor mundial dessas aplicações. Os países em desenvolvimento - com a notória exceção dos latino-americanos - também receberam mais investimentos.

Apesar de manter-se bem na comparação com outros países e continuar a atrair investimentos, o Brasil está longe de ter uma situação confortável. Boa parte dos investimentos diretos registrados até há pouco, como observou a Unctad em seu relatório anual sobre as aplicações produtivas internacionais, destinou-se a áreas como mineração, fabricação de veículos e indústrias eletrônica e de alimentos. Na maioria deles, as perspectivas de curto prazo são sombrias, por causa da redução da demanda interna, do endurecimento da política monetária e da queda dos preços internacionais, entre outros fatores. É possível, por isso, que o fluxo para esses segmentos em 2015 não repita o desempenho de anos recentes.

O avanço dos principais projetos nas áreas de infraestrutura e petróleo, com grande potencial de absorção de investimentos estrangeiros, poderia compensar a queda das aplicações na indústria voltada para o consumo interno e para as exportações. Mas esse avanço dependerá de fatores políticos, como a fixação de regras adequadas para a participação do capital privado e a conclusão das investigações do escândalo da Petrobrás, com a devida punição dos que nele estiverem envolvidos.

Não é um quadro animador. Isso torna mais preocupante a situação das contas externas do País. Até há pouco, os investimentos diretos eram suficientes para cobrir o desequilíbrio das contas correntes do balanço de pagamentos. Por causa do mau resultado da balança comercial - que no ano passado fechou com déficit de US$ 3,93 bilhões -, porém, esse desequilíbrio se ampliou expressivamente, tendo alcançado US$ 90,95 bilhões em 2014. Ou seja, os investimentos estrangeiros cobriram apenas 68% do rombo. O restante foi coberto com capital aplicado no mercado financeiro, de natureza volátil e, por isso, menos confiável para a estabilidade das contas externas. Esse quadro pode se repetir em 2015.

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