Capitalismo - o bom e o mau

Dizem que mercados livres e capitalismo andam de mãos dadas. Nem sempre. Crises tornam a intervenção estatal inevitável. Anos atrás, ao examinar as diferenças entre o bom e o mau capitalismo, o professor William Baumol chamou de bom aquele que gera crescimento econômico e bem-estar graças à inovação tecnológica. E enquadrou os EUA nesse escaninho como exemplo do capitalismo empresarial. Hoje, entretanto, nos perguntamos se o dinamismo da economia americana se encontra agonizante e aonde irá depois da eleição presidencial de 6 de novembro.

Eliana Cardoso,

24 Outubro 2012 | 03h08

Claudia Goldin e Lawrence Katz (The Race between Education and Technology) analisam a evolução da estrutura educacional e de salários nos EUA durante o século 20, que chamam de século do capital humano. O sistema educacional fez dos EUA a nação mais rica do mundo, pois já em 1900 seus governantes - insatisfeitos com a universalidade apenas da educação primária - tornaram obrigatório o nível secundário. Inovações tecnológicas e educação se arremessaram numa corrida. De 1900 a 1980, o rápido crescimento dos trabalhadores qualificados aumentou a renda da maioria das pessoas e diminuiu desigualdades. Mas o reverso vem ocorrendo desde 1980: a desaceleração do progresso educacional fez-se acompanhar do aumento da desigualdade. O ritmo inadequado de crescimento da educação de nível superior reduziu a capacidade de competição americana nos mercados globais.

Cinco anos após o início da crise financeira, os EUA continuam atolados em desemprego crônico e a taxa de 8% apenas cria a ilusão de que se está melhor do que ocorre na realidade, pois milhões desistiram de procurar trabalho e já não figuram nas estatísticas. O desânimo vai tomando conta de quem desconfia que o país, cada vez mais, serve os interesses de uma elite pequena numa grande democracia. Grande, sem dúvida, mas uma democracia que deixou de refletir os interesses da maioria da população à medida que Washington se perdeu na politicagem e na propaganda colorida das controvérsias econômicas.

A desconfiança em relação ao governo é imensa. Em parte - que ironia! -, porque muitos sentem que a política se submete ao domínio do poder econômico. Em parte, porque controvérsias alimentam o ceticismo de que possa existir uma prescrição melhor do que outra qualquer. O ceticismo atrapalha, pois o sucesso dos esforços para reverter a crise econômica depende da compreensão das forças que modelam a política.

Crítico da situação, o cidadão americano acredita que sabe o que deve ser feito. A maioria responde aos pesquisadores que a criação de empregos é prioritária e mais importante do que reduzir o déficit. E questionado sobre o que fazer para reduzi-lo, endossa o aumento de impostos sobre os ricos e o corte dos gastos de defesa. Essas ideias poderiam orientar os candidatos, mas não têm tração política em Washington.

De um lado, os interesses econômicos que apoiam o Partido Republicano têm dinheiro de sobra e inventam programas de extrema direita em organizações estaduais de lobby financiadas por conservadores multibilionários como Charles e David Koch ou na Heritage Foundation. O lobista Grover Norquist conseguiu a assinatura de 95% dos representantes republicanos no Congresso para a sua "Promessa de Proteção Fiscal".

A marcha para a direita acelerou-se com a ascensão do Tea Party. A agenda econômica do candidato à presidência joga com o descontentamento daqueles que ainda sofrem as consequências do cataclismo de 2008. Mas a aritmética do plano de Mitt Romney para a reforma tributária não fecha, pois um buraco de US$ 5 trilhões não se enche com o trilhão gerado pela eliminação das deduções. E a soma da receita dos impostos dos ricos - que continuariam a pagar tanto quanto antes - com a redução de impostos para a classe média não resulta em aumento de receita.

Do outro lado, os discursos do Partido Democrata resvalam muitas vezes para mornas mensagens populistas e acabam se perdendo na falta de clareza. Em vez de apontar para o que pretende fazer nos próximos quatro anos, Barack Obama tem-se concentrado em apontar os erros do outro candidato, jogando na defensiva. Lamentável que nenhum dos candidatos se tenha disposto a oferecer um diagnóstico honesto da situação americana nem a especificar medidas concretas para sair do buraco.

Talvez o desacordo entre os dois sobre o resgate da indústria automobilística sintetize o conflito entre eles. Os resultados positivos falsificam a crítica de Romney de que havia uma alternativa melhor, pois não havia financiamento privado disponível. Os mercados de capitais estavam congelados e o colapso teria sido inevitável se o governo não tivesse entrado em cena.

Embora ainda se acredite que o presidente Obama venha a ser reeleito, uma vitória apertada e um Congresso dividido diminuem o seu poder de negociação e podem impedir a renovação dos estímulos fiscais que terminam em 31 de dezembro: o "abismo fiscal" (fiscal cliff) equivale a cerca de 4% do produto interno bruto (PIB). Ao impacto dessa contração fiscal sobre o PIB teríamos de somar os cortes automáticos de gastos, caso não haja acordo quanto às medidas para a redução da dívida na próxima década. A proximidade desses ultimatos se agrava quando consideramos os feriados de Dia de Ação de Graças, Natal e ano-novo a encurtarem ainda mais o pouco tempo disponível para um acordo.

O impasse resulta em incerteza e onde há incerteza falta investimento, ameaçando a recuperação ainda frágil da economia. Uma contração econômica nos EUA contribuiria para a desvalorização do dólar de forma ainda mais previsível do que a política monetária expansionista do Federal Reserve Bank (Fed), o banco central americano). Não é à toa que os brasileiros estão de olho no norte. Em breve saberemos mais.

* PH.D. PELO MIT,  É PROFESSORA TITULAR DA FGV-SÃO PAULO

SITE: WWW.ELIANACARDOSO.COM

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