Cassado, mas não finito

A decadenza do senador e ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi, o mais afamado e infame político italiano dos últimos 20 anos pelo menos, começou nos idos de outubro, quando 30 dos seus comandados da bancada parlamentar do direitista Poppolo della Libertà (PdL) - novo nome de sua antiga agremiação, Forza Italia - se recusaram a participar de uma manobra torpe para salvá-lo da cassação do mandato por ter sido condenado por fraude fiscal.

O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2013 | 02h14

A armação consistia em submeter a um voto de confiança o governo de união nacional liderado pelo deputado Enrico Letta, do Partido Democrático - no qual o PdL tem cinco ministros. A ideia era derrubar o premiê obrigado a se coligar com Il Cavalieri por não ter obtido nas eleições de fevereiro a maioria no Senado, que ficou com o PdL. Quando entrou na agenda a questão da perda do seu mandato - a decadenza, que no jargão jurídico italiano significa "privação de um direito" -, Letta se negou a segurar a decisão sobre o incômodo aliado.

Sabotada pelos dissidentes da legenda, liderados por sinal pelo principal afilhado do indecoroso político, a sua tentativa de vingar-se de Letta e, ao mesmo tempo, safar-se da punição revelou-se tão desastrada que o próprio Berlusconi deu uma guinada abjeta até para os seus desenvoltos padrões de cinismo, rendendo-se aos rebelados. À época, previu-se neste espaço que "a humilhação apenas apressará o vagoroso ocaso de sua trajetória". Passados menos de dois meses do vexame, o cutelo se abateu sobre o pescoço do nefasto político.

Relator do processo de cassação, afinal concluído anteontem em votação aberta, o senador Dario Stefani disse que a Casa apenas tinha cumprido a lei. De fato, uma lei aprovada em 2012 determina a destituição do parlamentar que tenha sido condenado inapelavelmente a mais de dois anos de prisão em julgamento criminal. Alvo de nada menos de 41 ações ao longo de uma deplorável carreira propiciada pelo controle de três das sete redes italianas de TV e uma fortuna pessoal da ordem de US$ 6,2 bilhões, Berlusconi foi sentenciado por sonegação a quatro anos, dos quais cumprirá apenas um, em prisão domiciliar, ou prestando serviços comunitários.

Ele se beneficia dos seus 77 anos, embora faça de tudo para disfarçar. Mas tendo amainado as marcas do tempo, graças aos melhores medicamentos e cosméticos que o dinheiro pode comprar, não está mais livre de ser preso a qualquer momento em razão de outros crimes, como qualquer réu desprovido de imunidade parlamentar. Em decisão da qual ainda cabe recurso, o velho sátiro foi condenado a sete anos no escândalo do Rubygate, que alude ao apelido (Ruby Rouba-Corações) da marroquina Karima El Mahroug, a dançarina de cabaré a quem ele teria pago para manter relações sexuais entre fevereiro e maio de 2010, quando ela era menor de idade. De todos os malfeitos atribuídos ao magnata, este, decerto, é o mais repulsivo.

Além da cassação e da supressão de sua imunidade, Berlusconi ficará inelegível por seis anos. Com a empáfia habitual, ele acusou a esquerda de ter dado um "golpe de Estado" e falou em "dia de luto para a democracia". Menos espalhafatosamente, lembrou que a coligação encabeçada pelo seu partido foi a segunda mais votada nas eleições nacionais de fevereiro, conquistando cerca de 25% dos sufrágios. E o PdL foi também a segunda legenda individual premiada nas urnas, perdendo apenas para o antipolítico Movimento Cinco Estrelas (M5S), do ex-comediante Beppe Grillo. Depois da cassação, ele comentou, tipicamente: "Um está fora. Agora, temos de expulsar todos os outros".

Berlusconi está fora, mas não finito. Não foram poucas as vezes em que conseguiu desmentir os prognósticos de seu descarrilamento. É verdade que nenhuma das suas atribulações anteriores se compara à atual. Mas as pesquisas indicam que os italianos continuam divididos entre as mesmas correntes que prevaleceram no último pleito. O desafio de Berlusconi é manter o domínio sobre o PdL, impedir o desmanche da sigla e torcer para que a saúde não o abandone antes de tornar-se elegível de novo, aos 83 anos.

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