Cautelosa advertência do Copom

A redução de um ponto porcentual na taxa Selic era o que previa a grande maioria dos analistas do mercado. Embora só a leitura da Ata da reunião do Copom permitirá justificar a interrupção do ritmo da redução, podemos tentar descobrir as razões dessa decisão das autoridades monetárias.Ontem, numa declaração à imprensa, o presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, deu uma dica: "Nós já vemos sinais de recuperação importante na economia do Brasil, principalmente nas vendas do varejo." Isso explica por que, no comunicado final da reunião, o Copom deixou de se referir à continuidade do processo de redução da taxa básica.É que, mesmo dando sua contribuição à política anticíclica, o Copom se mostrou cauteloso na sua atuação, reconhecendo que por enquanto não existem pressões inflacionárias, mas sim alguns elementos com potencial para recriá-las.Ao se reunir, as autoridades monetárias tinham os dados do resultado do Tesouro Nacional para o 1º trimestre, que mostravam uma queda de 1,92% das receitas e um aumento das despesas de 19%, reduzindo o resultado primário para 1,35% do PIB, ante 4,69% no mesmo período de 2008. Essa deterioração se observa no que se refere às necessidades de financiamento do total do setor público (dados abaixo da linha, isto é, medidos pela variação da dívida), em que o superávit primário cai de 6,46%, no 1º trimestre de 2008, para 3%, neste ano. O Copom levou em consideração que as últimas medidas anticíclicas do governo só poderão acelerar essa deterioração.Se o comércio varejista até agora resistiu à desaceleração da indústria, é possível imaginar que a queda da taxa de juros imposta ao Banco do Brasil só poderá fortalecer a demanda doméstica.A redução da taxa Selic favorece antes de tudo o governo, que reduzirá seus gastos com juros - redução bem recebida num momento em que a dívida interna está crescendo e os juros da dívida externa estão aumentando com a desvalorização da moeda.O que não aparecerá na Ata do Copom é que o BC prestou um bom serviço ao diminuir o ritmo das quedas da Selic, adiando uma decisão difícil para o presidente, a de ter de reduzir a rentabilidade nominal das cadernetas de poupança.O Copom está numa posição confortável: deu sua contribuição para combater a recessão, mas, ao mesmo tempo, advertiu que não se pode reduzir a Selic a qualquer preço.

, O Estadao de S.Paulo

01 de maio de 2009 | 00h00

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