Celebrar, investigar ou evitar a morte

Após pressões da ONU e de ONGs de direitos humanos, o Conselho Nacional de Transição da nova Líbia determinou a investigação das causas da morte de Muamar Kadafi. Um passo humanitário imprescindível. Nenhuma morte que não seja produzida em defesa própria pode ficar sem justificativa. Nem a de grandes inimigos. Criador da maquinaria que matou sistematicamente milhões de inocentes civis, retirando-os de suas casas, deportando-os para campos de trabalho forçado e asfixiando-os em câmaras de gás durante o Holocausto nazista, Adolf Eichmann foi julgado num tribunal aberto em Jerusalém, após ter sido capturado na Argentina.

Rúben Sternschein, rabino da Congregação Israelita Paulista, formado em Filosofia e em Educação, com teses acadêmicas em Filosofia Judaica e Ciências do Judaísmo na Universidade Hebraica de Jerusalém e no Hebrew Union College, O Estado de S.Paulo

30 Novembro 2011 | 03h07

A morte pública do ditador Muamar Kadafi inevitavelmente nos remete à de Saddam Hussein e à de Osama bin Laden. Nos três casos, tratava-se de arqui-inimigos da democracia, manipuladores da lei para ajustes de contas pessoais, violadores sanguinários dos direitos humanos de seus próprios povos e responsáveis diretos por crimes contra a humanidade. E, igualmente nos três casos, assistimos a celebrações, maiores ou menores, da morte em si. Uma prática muito observada nos últimos tempos. Em Sirta, revelaram-se dezenas de corpos de defensores do ditador Kadafi com sinais de tortura ou morte sumária. Nos territórios administrados pela Autoridade Palestina, é frequente ver famílias com crianças festejando a morte de crianças israelenses em atentados terroristas em shoppings, escolas ou na rua.

O judaísmo é uma tradição religiosa focada na vida neste mundo. A Torá, ou Pentateuco, conclui seus mandamentos ordenando: "Escolhe a vida!" (Deuteronômio 30:19). A tradição interpretativa judaica explica que se trata da vida em si, de todos. Toda vida, e não apenas a própria ou dos próximos. Na lei judaica religiosa rege o princípio de pikuach nefesh, a prioridade da vida sobre qualquer preceito. Se uma vida estiver em jogo no cumprimento de um mandamento religioso, este deve ser abandonado em função da prerrogativa da vida. Seja a de quem estiver cumprindo o preceito ou a de qualquer outra pessoa envolvida. Devem, inclusive, ser transgredidos preceitos e normas que interfiram na tentativa de salvar uma vida.

O Livro dos Provérbios determina: "Não te alegres com a queda de teu inimigo" (24:17). Ainda que a própria lei judaica considere a possibilidade ou mesmo a necessidade de se antecipar a um assassino que ameace matar um inocente, uma vez realizado o ato em defesa própria, o judaísmo não enxerga nele motivo algum de regozijo. Ao contrário. Na ceia da Páscoa judaica, a alegria da celebração pela libertação da escravidão é manchada com gotas de vinho derramadas na mesa, em sinal do luto pela morte dos egípcios que perseguiram os escravos hebreus no Mar Vermelho.

Essa concepção da vida talvez explique o caso Gilad Shalit, soldado de 20 anos de idade capturado pelas milícias terroristas do Hamas durante seu serviço militar, em 2006, longe de qualquer combate. Shalit foi recentemente libertado, após 1.941 dias de cativeiro, em troca de 1.027 prisioneiros, na sua maioria perpetradores de atentados contra civis em restaurantes, shoppings, ônibus e escolas de Israel.

Muitos analistas políticos e militares se apressaram a comentar o suposto interesse do premiê Binyamin Netanyahu em aprimorar sua imagem; o efeito perigoso de ter fortalecido o próprio Hamas diante do mais moderado Fatah, do presidente Abbas; o incalculável risco de libertar terroristas que poderiam voltar a explodir centros comerciais e ônibus escolares; e a inaceitável mensagem dada às milícias de que vale a pena sequestrar soldados para libertar terroristas e outros criminosos.

Levantam-se também questionamentos a respeito das condições que geram semelhantes "mercado" e negociação. Como é possível que de um lado existam mil e do outro, apenas um? Os palestinos não tentaram libertar seus prisioneiros antes? Não ofereceram nada em troca? A razão disso residiria no fato de que a própria população palestina não estaria interessada em voltar a conviver com terroristas? Mas, nesse caso, por que aceitá-los agora?

Como agem outros países ocidentais? Em vários casos, simplesmente não negociam prisioneiros cativos por terroristas, eles os dão por mortos. Assim evitam a chantagem, os sequestros e a libertação de assassinos.

Quando Caim matou Abel, o texto bíblico relata que Deus denunciou: "A voz dos sangues de seu irmão me chama da terra" (Gênesis 4:9). O plural (os sangues) foi interpretado na leitura judaica da seguinte maneira: ao matar Abel, Caim matou tudo o que poderia ter vivido a partir dele. Portanto, quem mata uma pessoa mata um mundo inteiro e quem salva uma alma salva um mundo inteiro. Na visão judaica, cada ser é único e é considerado como toda a humanidade.

Como a clonagem demonstra que uma célula inclui em si todo o ser de que faz parte, cada indivíduo inclui todo mundo e cada momento, toda a História. No judaísmo não há celebração da morte. Não existem "guerra santa" nem hereges de outras tradições que mereçam a fogueira. Não se prega a morte de civis, não se premiam terroristas de nenhum tipo, muito menos homens-bomba que matem civis. Nem neste mundo, nem em nenhum outro.

Golda Meir, a primeira mulher a presidir o governo israelense, dizia: "Quando os nossos inimigos amarem seus filhos mais do que odeiam os nossos, conseguiremos diminuir as tensões". Talvez a solução esteja em aumentar o respeito à vida nos arquétipos educativos que nos norteiam.

Gilad Shalit foi libertado por um preço sem precedentes. Além das especulações políticas e dos discursos vitoriosos dos terroristas sobre a suposta fraqueza israelense, é muito provável que o princípio judaico de salvar uma vida tenha influenciado essa decisão. Assim se estaria salvando, ou ao menos protegendo, a humanidade toda. A humanidade de todos.

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