Cenário sombrio

Prognósticos sombrios do Banco Mundial (Bird) sobre os efeitos da crise internacional nos países emergentes justificam plenamente a advertência do presidente da instituição, Robert Zoellick. É preciso reagir em tempo real à expansão da crise, disse Zoellick, pois ela atinge com severidade as populações dos países em desenvolvimento. Evitar uma catástrofe econômica nesses países é parte importante dos esforços mundiais para superar uma crise global como essa, que exige soluções globais, completou.Algumas conclusões de um estudo do Bird sobre o efeito da crise nos países emergentes, porém, trazem muito mais perguntas do que respostas a respeito das possíveis soluções globais. A rápida deterioração das condições financeiras internacionais prejudica governos e empresas privadas de todos os países, mas está sendo particularmente nociva para os países em desenvolvimento. Estes não terão onde buscar financiamentos de que necessitam para honrar todos os seus compromissos internacionais. Dependendo de como evoluir a crise, a soma dos déficits desses países pode chegar a US$ 700 bilhões em 2009, e não há, até agora, nenhuma instituição multilateral com recursos para suprir tal carência.Instituições privadas que tradicionalmente financiavam esses países fecharam as portas ou suspenderam as operações. Quando existem, os financiamentos são mais caros e oferecidos em condições mais difíceis. Além disso, governos de países ricos que não tomavam empréstimos externos dependerão de captações no mercado financeiro para sustentar os programas de enfrentamento da crise. O que era pouco para os países em desenvolvimento poderá desaparecer.O fluxo de capitais para os emergentes, em 2009, deverá ser o menor desde o início da década. Sem investimentos externos e carentes de financiamentos, esses países pouco investirão em infraestrutura ou na rede de proteção social, e isso afetará fortemente sua capacidade de crescimento.No passado recente, instituições multilaterais de financiamento, como o Bird e o Fundo Monetário Internacional (FMI), desempenharam papel decisivo para prevenir crises e apoiar países em dificuldades. Desta vez, porém, as necessidades são muito maiores do que sua capacidade. Se o Bird, por exemplo, triplicar seus empréstimos em 2009, eles alcançarão US$ 35 bilhões. Com a quitação de empréstimos anteriores e recursos novos, em três anos poderá emprestar US$ 100 bilhões. É insuficiente para atender os países emergentes.Também o FMI tem recursos limitados, e uma parte já está comprometida com o apoio a países do Leste da Europa. Os países ricos poderiam resolver parcialmente esse problema, fornecendo mais recursos ao FMI sem necessariamente aumentar sua participação no capital da instituição - um processo muito demorado que exigiria a aprovação dos Legislativos nacionais. O estudo do Bird foi elaborado para subsidiar as discussões dos ministros de Finanças e presidentes dos bancos centrais do G-20 (os 20 países mais desenvolvidos do mundo), que se reunirão sábado em Londres, e para lhes mostrar a gravidade do problema. Mas os países ricos já têm seus próprios problemas, e é difícil que concordem em assumir os dos países emergentes.A recuperação da economia mundial melhoraria a situação, mas ela parece ainda muito distante. O Bird prevê que 2009 será o pior ano para a economia do planeta desde o fim da 2ª Guerra Mundial. Até o último relatório da instituição sobre o desempenho da economia global, de fim do ano passado, a projeção era de um pequeno crescimento, de 0,9%. No estudo que acaba de divulgar, o Bird prevê redução do PIB mundial, a primeira desde 1945. Não dá números globais - eles deverão constar do relatório a ser divulgado na reunião conjunta do Bird e do Fundo Monetário Internacional em Washington, no início de abril -, mas antecipa que a produção industrial, na metade de 2009, deverá ser 15% menor do que a de igual período de 2008.Para completar o cenário, o comércio mundial também deverá encolher, o que não acontece desde 1982, e seu desempenho em 2009 deverá ser o pior dos últimos 80 anos.

, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

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