Centro unido para não ser vencido

Não vejo o centro político já derrotado e o Brasil condenado à triste opção entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad

Roberto Macedo, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2018 | 03h00

Não vejo o centro político já derrotado e o Brasil condenado à triste opção entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Na análise que se segue recorri ao psicólogo Daniel Kahneman, que ganhou fama ao contestar premissa básica do pensamento econômico tradicional, a de racionalidade do ser humano. Por sua contribuição à análise econômica, ganhou o Nobel de Economia em 2002. 

Com implicações além dessa análise, Kahneman argumenta que o ser humano tem racionalidade limitada e ao decidir tem duas formas de pensar, os Sistemas 1 e 2. O primeiro é rápido e usa instintos, crenças e comportamentos que muitas vezes levam a opções equivocadas. Como o comportamento de manada, em que a pessoa segue um grupo sem refletir sobre o caminho a que será levada. Por exemplo, ao comprar ações sem se informar bem sobre elas, só porque muitas pessoas estão a adquiri-las. O Sistema 2 toma mais tempo, é mais analítico e racional, procura informações sobre o objeto da decisão e como esta deve incorporá-las de forma a minimizar o risco de erros.

Muitos adeptos de Bolsonaro e Haddad decidem pelo Sistema 1, sem maior reflexão sobre esses candidatos, seus vices incluídos. Após 1960, vários vices assumiram pela renúncia, morte ou pelo impeachment do titular: Jango, Sarney, Itamar e Temer. Dessa turma, só Itamar saiu com prestígio. O eleitor já refletiu sobre o que pode acontecer se o vice substituir seu candidato? Voltarei ao assunto.

Estou no PSDB há uns 30 anos, levado poe seu programa e por personalidades como Montoro, FHC, Covas e Serra. Entendo que a social-democracia é adequada ao Brasil, num formato mais liberal para a economia para que realize efetivamente seu potencial e gere tributos para uma ação social condizente com a dívida desse tipo que o País carrega. Em particular, por não ter cuidado dos escravos libertados, deixando-os ao deus-dará. 

Utilizando o Sistema 2 para recolher informações, Geraldo Alckmin é um candidato fiel ao espírito da social-democracia e com perfil adequado para unir o centro. É sensato, tem história política, capacidade de granjear apoio na área – e precisamos dos políticos para sair desta encrenca em que o país se meteu –, larga experiência administrativa no governo paulista e resultados para mostrar, como nas áreas de segurança, educação, gestão das contas públicas e infraestrutura. Tentativas de rotulá-lo como ficha-suja não colaram. É de hábitos simples, muito apegado à família. Em particular, contrasta com o ex-candidato Lula, que ao se inscrever se revelou um proletário milionário, com patrimônio de R$ 8 milhões. O programa de Alckmin é muito adequado às necessidades do País. A versão completa é recente e está em www.geraldoalckmin.com.br. O programa tem dez áreas de atuação e é coisa para ler, guardar e... cobrar! 

Como já disse, muitos dos apoiadores do capitão Bolsonaro pensam pelo Sistema 1, sem buscar informações. O apoio veio também pelo comportamento de manada. Se usassem o Sistema 2, saberiam que ele é temperamental e propenso a enfrentar com mais violência a criminalidade que se esconde em comunidades de baixa renda, pondo-as sob um risco ainda maior. Como militar, é da corporação do funcionalismo, cujo enfrentamento é indispensável para reformar o Estado e torná-lo mais eficaz a um custo menor. Não tem experiência administrativa, é avesso a entendimentos políticos, nada entende de economia e quem o indaga sobre o assunto é instado a ir a seu posto Ipiranga, o economista Paulo Guedes. Este exagera no liberalismo, despreza as dificuldades políticas e mesmo de recursos para implementar suas propostas. Não passou por estágio em Brasília. E viriam conflitos com o seu próprio chefe, nada liberal. Poderia durar pouco como ministro da Fazenda.

Haddad é pessoa de fino trato pessoal, mas como candidato do PT, ou pior, do PL, o Partido do Lula, tem este como ídolo e mentor. Como presidente, Lula começou bem, mas depois teve culpa no processo que levou o País ao buraco em que se encontra. Como ao acomodar a corrupção no governo e não aproveitar, para também investir mais, a bonança econômica que recebeu do PC chinês, quase só apostando na expansão do consumo e levando as pessoas a desprezar a poupança e exacerbar o endividamento. E na saída fez feio, escolhendo Dilma para suceder-lhe. Tida como gerentona, foi uma tremenda trapalhona. Seu desastre ainda tem seus efeitos. E o PT também aparelhou a máquina do Estado com seus quadros corporativistas, prejudicando uma reforma dele. Assim, quem vai atrás do PT está igualmente operando pelo Sistema 1.

Olhando os vices, a de Alckmin, senadora Ana Amélia, também ficha-limpa, foi por muito tempo jornalista na área de economia, é experiente no trato com o Congresso e sintonizada com o programa da chapa. Bolsonaro tem como vice o general Hamilton Mourão, em tese submisso ao capitão. Não conheço seu temperamento, mas em termos administrativos e corporativos envolve os mesmos riscos de Bolsonaro, além do risco de agir por conta própria e no meio militar.

E a vice de Fernando Haddad, Manuela d’Ávila, do PCdoB, o Partido Comunista do Brasil? Não tem experiência administrativa. Supondo que seja coerente com seus princípios, passaria a conduzir o governo com ideias de um partido ultraminoritário – tem apenas 12 deputados federais, 1,6% do total, e um senador. Se eleita, terá sido pela chapa, como Temer. E o dano à confiança na economia, caso assumisse?

Concluo apelando ao voto pelo Sistema 2, sem crenças preconcebidas ou hoje mal concebidas. Cabe também apelar aos eleitores de Marina, Meirelles, Amoêdo e Álvaro Dias, bem como a esses candidatos, para que preguem a união em torno de Alckmin. Sem essa união, há um grande risco nesta eleição: o centro, desunido, então será vencido!

ECONOMISTA (UFMG, USP E HARVARD), É CONSULTOR ECONÔMICO E DE ENSINO SUPERIOR

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