Cepal mostra Brasil estagnado

Com expansão prevista de 1,4%, o Brasil perderá mais uma vez a corrida do crescimento, neste ano, para a maior parte dos latino-americanos, segundo os novos cálculos da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Para toda a região, ficou em 2,2% o aumento do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para 2014. Em abril, a projeção ainda estava em 2,7%. O pessimismo denunciado com insistência pela presidente Dilma Rousseff parece haver-se tornado uma epidemia. Já havia contaminado outras instituições multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e continua a espalhar-se, mas com algumas limitações. Ainda há fortes apostas na recuperação dos Estados Unidos e da Europa, embora menos veloz do que se previa no ano passado. Além disso, a China, apesar de alguma desaceleração, ainda deverá crescer uns 7,5% neste ano, segundo as estimativas correntes.

O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2014 | 02h04

Outra qualificação importante envolve a América Latina: num quadro geral menos brilhante que o dos últimos anos, o Brasil se distingue como um dos países com piores perspectivas de crescimento. O governo brasileiro já contestou o FMI, quando suas novas projeções, divulgadas em julho, reduziram de 1,9% para 1,3% a expansão esperada para o País.

A nova estimativa da Cepal é muito parecida com a do Fundo. Mas há outros detalhes desagradáveis nesse conjunto de previsões. Segundo as contas cepalinas, o dinamismo brasileiro só deve ser maior, neste ano, que o da Argentina (expansão de 0,2%) e o da Venezuela (contração de 0,5%). Mas será tão bom como o de Cuba, com crescimento igualmente estimado de 1,4%. A coincidência pode ser acidental, mas nem por isso menos notável: a convergência no mau desempenho parece acompanhar as alianças políticas, afinidades ideológicas e parentesco de concepções diplomáticas.

O novo relatório da Cepal assemelha-se aos últimos estudos do FMI também no diagnóstico das condições de crescimento. Os problemas externos explicam apenas em parte as dificuldades da América Latina. A maior parte dos obstáculos é de origem interna. Os latino-americanos, como outros emergentes, perderam potencial de crescimento, depois de alguns anos de muito dinamismo. Essa explicação é geralmente válida, mas é preciso levar em conta diferentes condições.

Em muitos países o potencial de crescimento está próximo de 3% ao ano ou abaixo desse nível. Esse grupo inclui a maior parte dos centro-americanos e algumas das maiores economias da América Latina, incluídas a mexicana e a brasileira, além, naturalmente, da venezuelana. O potencial do Chile continua acima de 3%, mas com tendência de baixa. Outro grupo, muito dinâmico nos últimos anos, mantém a capacidade de crescer mais que 4% ao ano por um tempo razoável: Bolívia, Colômbia, Equador, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai.

Nem todos, mas vários desses países têm exibido taxas de inflação inferiores às do Brasil. Em alguns, a geração de emprego tem sido inferior à observada no Brasil, mas os números ficam muito próximos quando se consideram os últimos dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), muito mais amplos que os da pesquisa mensal divulgada pelo IBGE e realizada em apenas seis áreas metropolitanas. A Pnad cobre cerca de 3.500 municípios.

A receita para o crescimento pode variar nos detalhes, mas algumas recomendações são aplicáveis a todos os latino-americanos. É preciso investir mais em infraestrutura, cuidar mais da formação de mão de obra e, de modo geral, cuidar das condições de produtividade. A diversificação da pauta de exportações tem aparecido há anos como um componente óbvio do receituário. A presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda podem continuar rejeitando as projeções econômicas e contestando os diagnósticos. Têm feito isso há algum tempo e os resultados, a começar pelos divulgados p0r fontes oficiais, invariavelmente indicam baixo crescimento e inflação alta. Mudar a política econômica daria mais certo.

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