Chavismo, populismo e santeria

Fica clara uma lição do drama sofrido pelo falecido presidente Hugo Chávez, da Venezuela, bem como pelo povo desse país irmão: os homens passam, as nações ficam. O grande problema dos populismos (a mais recente variável do patrimonialismo na América Latina) é que guindam às alturas líderes carismáticos, que passam a considerar-se sobranceiros ao próprio povo que os colocou no altar da fama e tentam pôr as instituições e as nações respectivas a serviço do seu projeto pessoal de imortalidade. A mumificação do líder carismático é o corolário natural desse processo.

Ricardo Vélez Rodríguez *,

10 Abril 2013 | 02h13

Esse fenômeno, que era corriqueiro na Antiguidade, ao ensejo dos despotismos hidráulicos, muito bem estudados por Karl Wittfogel na sua clássica obra O Despotismo Oriental (1951), manifestou-se, no antigo Egito, nos impérios pré-colombianos inca e asteca, no império chinês, após a unificação dos chamados "Estados combatentes" efetivada pelo imperador Chin, nos impérios sumero-babilônicos, etc. Era conhecida, nesses contextos, a macabra praxe da imolação coletiva dos funcionários reais e de suas famílias quando da morte do líder. Prática que, diga-se de passagem, não deixaria de ser profilática na atual sem-vergonhice do patrimonialismo caboclo.

A primeira manifestação moderna da pretensão de imortalidade pessoal veio na trilha do patrimonialismo ibérico, ao ensejo do absolutismo da dinastia dos Áustrias, com Carlos V e Filipe II, que encontraram no pensamento contrarreformista a ideologia de que precisavam para a perpetuação no poder. O conluio entre poder absoluto da realeza e burocracia eclesiástica foi a resultante dessa simbiose entre religião e política, com os resultados muito bem conhecidos no império espanhol, notadamente no México. Sofremos também no Brasil as consequências dessa mistura, no absolutismo piegas de dona Maria I, que levou Tiradentes ao patíbulo e perseguiu com mão de ferro os demais conjurados mineiros.

A pretensão hegemônica do líder carismático veio a ser sistematizada por Jean-Jacques Rousseau, que efetivou a síntese do pensamento totalitário no seu opúsculo O Contrato Social (1763). O legislador, para ele, seria o salvador, porquanto imporia a unanimidade e eliminaria o dissenso, condições da felicidade geral. Na América Latina, em perversa síntese juntou-se a tradição patrimonialista ibérica com o pensamento de Rousseau, o que produziu um reforço à ideia do poder total, que se manifestou no feroz patrimonialismo que tomou conta dos países hispano-americanos após as guerras da independência. No Brasil, essa variável se concretizou, depois de proclamada a República positivista, com a eliminação dos que se manifestassem contra. Canudos e a saga do Contestado são expressão desse modelo.

No século 20, a concepção do poder total deixou de ser uma religião revelada para se transformar em ideologia, "a religião totalitária". Ora, é desse teor o pano de fundo de crenças em que se alicerça o populismo. Chávez considerou-se, numa primeira etapa, o enviado de Cristo para apregoar nas Américas a Teologia da Libertação. Já num segundo momento, premido pela doença, apelou para um coquetel ideológico em que foram misturados elementos do cristianismo evangélico (praticado pela avó) e da santeria afro-caribenha. É sabido, como nos conta Beatriz Lecumberri na sua obra intutulada La Revolución Sentimental (Caracas: Puntocero, 2012), que, na cerimônia com os paleros (assim chamados os chefes dos terreiros de santeria), o cadáver do Libertador Simón Bolívar foi exumado num ritual rigorosamente planejado, com a finalidade de que o líder doente pudesse apropriar-se da imortalidade do herói. A resultante desse processo, num contexto fortemente patrimonialista como o venezuelano, é a radicalização do exército dos seguidores de Chávez (hoje estimado em perto de 120 mil camponeses e líderes sindicais armados nas denominadas "milícias bolivarianas"), que, certamente, farão muito barulho, causarão inúmeras mortes e dificultarão ao máximo a volta do país ao leito da normalidade democrática.

No Brasil não ficamos imunes a esse fenômeno de maluquice coletiva. Já estamos pagando a conta da era lulopetista, com a inflação que chegou, com a Petrobrás sendo cada dia mais descapitalizada, com a gastança federal da pupila do líder carismático (que levou a Roma imensa comitiva que se hospedou em hotéis de primeira "para facilitar os trabalhos", segundo a alegação oficial) e com a nossa infraestrutura em frangalhos depois de a petralhada ter torrado em políticas sociais sem rumo o caixa feito por Fernando Henrique Cardoso e que pagaria os investimentos que não foram realizados.

Isso sem falar no "mar de lama" patrocinado desde a alta cúpula para pagar fidelidades no Congresso (no nosso "presidencialismo de coalizão"). Para não mencionar o stalinismo da direção petista, que enfileira suas baterias contra todo e qualquer um que se opuser ao projeto de hegemonia partidária, desde os ministros do Supremo Tribunal Federal até os jornalistas, blogueiros e empresas de mídia que não se afinem com a pretensão oligárquica. Para piorar as coisas, num momento em que o Brasil se atrapalha com montes de obras atrasadas para os eventos esportivos previstos, o líder carismático faz deslanchar antecipadamente a campanha presidencial, com o corriqueiro clima de palanque que já tomou conta do País e impede uma administração transparente do dinheiro público.

Para superarmos o risco do misticismo patrimonialista vamos começar pelo ponto que realmente interessa à sociedade brasileira: o saneamento da representação. Aproveitemos que se fala hoje, de novo, em reforma política. É necessário, mais do que nunca, que se adote o sistema distrital no Brasil. Somente assim a sociedade sentirá que tem forças para controlar o poder e fazer valer os interesses dos cidadãos.

* Ricardo Vélez Rodríguez é coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas da UFJF. E-mail: rive2001@gmail.com.

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