Chega de diagnósticos, é hora de agir

É preciso enfatizar o senso de urgência, de pensar soluções ‘fora da caixa’ e agir com ousadia

*Roberto Giannetti da Fonseca, O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2017 | 03h02

Bons economistas de variadas correntes de pensamento já escreveram bastante sobre as origens desta crise, que todos sabemos ser grave e contínua em espiral recessiva. Neste ponto cabe a referência a Keynes e sua célebre frase: “No longo prazo estaremos todos mortos”. O que Keynes quis dizer é que em situações críticas, como é o nosso caso hoje, interessa olhar principalmente aquilo que a vista alcança e ameaça nossa imediata sobrevivência.

Isto posto, o que de mais grave se divisa em nosso horizonte de curto prazo são os 12 milhões de desempregados – a um ritmo crescente de 100 mil a mais a cada mês – e a evidência de 40% de capacidade ociosa na indústria brasileira, em estado de prejuízo quase coletivo. Isso basta para afirmar que nossa economia está em estado de emergência e deve seguir imediatamente para a UTI. Nesta situação é preciso enfatizar o absoluto senso de urgência, de pensar soluções “fora da caixa” e agir com relativa ousadia. Com isso quero dizer que medidas clássicas de política econômica cujos efeitos só resultam em médio e longo prazos, mesmo que corretas e necessárias, não vão preservar a vida do paciente na UTI. A sobrevivência vem em primeiro lugar e a desejável boa convivência virá a posteriori.

Que continuem em curso as imprescindíveis medidas de reforma econômica, tais como a reforma da previdência, a trabalhista e outras que virão. Mas para o curtíssimo prazo não basta, seus efeitos não vão resolver a tempo, ainda em 2017, o angustiante dia a dia de milhões de chefes de família desempregados, cancelando seus planos de saúde, retirando os filhos da escola privada, atrasando o pagamento de aluguéis e prestações, sendo engolidos pela inadimplência, pelo desespero e pela indignação. Caso continue a subir a taxa de desemprego, isso só piorará exponencialmente o atual déficit da Previdência Social e também derrubará mais ainda o consumo das famílias, causando, por consequência, mais desemprego à frente.

Com a ousadia que o momento exige, cabe examinar quais as medidas que podem ter efeito relevante em curto prazo. O receituário é obvio e poderia ser mais extenso, vamo-nos concentrar, porém, em três vetores básicos.

Em primeiro lugar, reduzir imediata e continuamente a taxa Selic ao longo de 2017, uma vez que a inflação está contida em nível satisfatório, ao redor de 5% ao ano (juros reais de 3% a 4% ao ano seriam o desejável), e tomar as medidas necessárias para estimular o consumo das famílias, que devem ser ampliadas, buscando reduzir os juros sobre o estoque de dívida dos consumidores em cartões de crédito e crediários, e consequentemente ampliar a demanda doméstica. Só isso talvez não seja suficiente, pois a queda de renda e de confiança dos consumidores só será resgatada com a retomada do nível de emprego e o crescimento da economia.

Vamos, então, examinar como estimular os investimentos. Do setor produtivo não há que esperar muita coisa em 2017, em face da capacidade ociosa da indústria, mas na infraestrutura há uma imediata oportunidade de investimentos de centenas de bilhões de reais. Para torná-la factível é preciso finalmente lançar o processo licitatório de novas concessões, mas também tornar viável o mecanismo de seguro de risco cambial (não confundir com o mecanismo de hedge cambial), sem subsídios, mas com protagonismo do governo federal. Essa medida poderia tornar viável a imediata adesão de dezenas de potenciais investidores em logística e infraestrutura, nacionais e estrangeiros, e de fontes de financiamento em moeda estrangeira, em complementação aos limitados recursos do BNDES.

Também vemos a necessidade de estimular para valer as exportações brasileiras, a começar pela política cambial, lembrando que ao longo de 2016, ao reverso do que ocorreu na maioria de outras economias emergentes, o real valorizou-se 18% em relação ao dólar, reduzindo a competitividade relativa das exportações brasileiras. Numa fase de desemprego e forte ociosidade industrial, isso me parece um contrassenso total.

Sabemos de antemão que alguns críticos afirmam que as exportações brasileiras representam hoje somente 13% do PIB nacional e pouco vão influenciar a retomada do emprego e da economia. Nada mais equivocado que essa premissa. Cabe lembrar que se assim agissem, nem a China, nem a Coreia do Sul dos anos 1980 se teriam transformado nas atuais potências exportadoras. Para quem, como o Brasil, exporta pouco, mas já dispõe de diversificada base industrial e com ampla capacidade ociosa, angariar um crescimento anual consecutivo de 15% das exportações de manufaturados pode significar 1,5% ao ano de crescimento do PIB. E gerar milhões de empregos diretos e indiretos, com imediato efeito multiplicador na demanda agregada doméstica. Nada mal para quem vê sua economia em estado depressivo por três anos consecutivos e com crescimento negativo acumulado de quase 10%.

Com uma taxa de câmbio numa paridade de mercado mais adequada para a economia brasileira, deveríamos iniciar um processo unilateral de redução de tarifas de importação, já que tarifas e câmbio têm efeito reflexivo direto. Isso aliviaria um pouco o efeito da desvalorização cambial sobre os importados e, consequentemente, sobre a inflação. De nada nos adianta manter um nível tarifário de importação tão elevado e uma taxa de câmbio sobrevalorizada. É disto que estamos padecendo, absoluta falta de racionalidade e de convergência das políticas macro e microeconômicas. Ambos podem caminhar juntos para um novo ponto de equilíbrio de melhor desempenho econômico para o nosso país.

Coragem para seguir frente e vencermos mais esta crise!

*Economista e empresário, presidente da Kaduna Consultoria, é presidente do Lide Infraestrutura e do Capítulo Brasileiro do Conselho Empresarial da América Latina (CEAL)

 

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