Chegou a vez do avesso

Em relação ao Brasil, alguém já constatou que somos um povo em nada original. A cada 15 ou 20 anos - 30, no máximo - estamos condenados a repetir os mesmos erros da etapa anterior, sempre convictos de que a mudança da ocasião é ímpar e, portanto, única em nossa História. Isso se deve, em grande parte, ao cristianismo e ao seu conceito de "flecha do tempo". Para a maioria das civilizações, o tempo é cíclico, para não dizer "circular". Para nós, não. Se, ao contrário, pensássemos como os outros, certamente nos teríamos poupado de um sem-número de dissabores. Mas o que há de se fazer?

João Mellão Neto*, O Estado de S.Paulo

18 Outubro 2013 | 02h13

Sou adepto da tese de que a História se repete, sim. E ai daqueles que não se acautelam contra isso. Como os raios, que caem frequentemente nos mesmos lugares, as enchentes e as secas se alternam com a mesma frequência e, no que tange à política nacional, ditaduras e democracias sempre se alternam no poder. E sempre haverá salvadores da Pátria, mesmo que pouco lhes importe saber se a Pátria deseja realmente ser salva.

Para comprovar esse raciocínio basta lembrarmos o que era e almejava o Brasil de 36 anos atrás. O ano de 1977 foi marcante para mim, pois foi quando entrei na faculdade. Com a abertura política durante o governo Ernesto Geisel, já se prenunciava o ocaso da ditadura militar, enfim consumado em 15 de março de 1985, com a saída do Planalto do general João Figueiredo.

Às vésperas da transição para a chamada Nova República, o clima era de fim de festa. Os militares, ao menos os mais sinceros e idealistas, queriam realmente deixar o poder. O que temiam eram represálias. Todavia o presidente eleito, Tancredo de Almeida Neves, com sua experiência e sua autoridade moral, garantiu-lhes que nada disso aconteceria. Tancredo já havia dialogado com todas as lideranças representativas da Nação e arrancara de cada uma delas o compromisso de manter a paz, custasse o que custasse.

Assim sendo, nada impedia uma transição pacífica. Quer dizer, nada a não ser a saúde do próprio Tancredo Neves. Os fados do tempo sempre nos pregaram peças... E foi justamente no dia anterior à posse que eles ressurgiram e terminaram por nos infligir a morte do futuro presidente da República, depois de longa agonia, em 21 de abril de 1985.

Na manhã de 15 de março o Congresso Nacional empossara o vice interinamente. E logo surgiu uma suposta lista de ministros escolhidos por Tancredo, cuja autenticidade, se ninguém podia comprovar, tampouco se atreveria a contestar publicamente. O documento, divulgado postumamente, deu força de lei ao que hipoteticamente seria a vontade de Tancredo Neves. Assim, José Sarney assumiu a Presidência com um Ministério que estava longe de ser o de sua escolha pessoal.

Tudo isso custaria muito caro à Nação. A torrente de "gastos sociais" aprovados por muito pouco não levou o País à bancarrota. Mas levou ao FMI, o que, na prática, dava na mesma. O Brasil tornara-se um pária do mercado internacional.

Esses fatos, somados a outros tantos, começaram a abrir caminho para a hipótese PT. E esta acabou por se tornar viável nas eleições de 2002.

O Partido dos Trabalhadores funcionava como uma verdadeira orquestra. Cada um de seus membros - foi provado depois - sabia exatamente como agir ou deixar de fazê-lo. No comando de todos estava José Dirceu - personagem singular e fascinante, que sempre traiu, mas nunca fora traído, foi mais esperto que os irmãos Fidel e Raúl Castro e virou herói de guerra sem nunca ter entrado em combate. Também fez fortuna sem jamais ter trabalhado. Segundo a acusação na Ação Penal 470 (mensalão), Dirceu era nada menos que o cérebro de uma "organização criminosa". Ele foi o guardião das moçoilas do interior, bem como objeto de desejo das balzaquianas das capitais. Por sinal, uma delas frequenta as páginas das revistas e consta que ganha muito dinheiro traficando influência e "facilitando" negócios espúrios.

Mas agora, completando mais um ciclo, o pêndulo da História dá evidentes demonstrações de que caminha para o lado oposto. Eis que surge uma chapa para concorrer à próxima eleição presidencial que se lastreia na ética como o seu principal trunfo. Aliás, se não fosse assim, nem sequer teria razão de existir. O voto em Marina Silva brota do descontentamento das ruas. E as ruas, como está patente desde junho, não estão dispostas a tolerar o menor deslize que seja.

Como eu defendia no início deste artigo, o tempo é cíclico. E com a mesma certeza com que esperamos pelo verão após a primavera e pelo dia após a noite, sabemos que depois da tempestade sempre vem a bonança - ou a enchente, segundo os mais pessimistas...

O PT abusou do "direito" de delinquir. Enquanto a economia parecia ir bem, o povo tolerou os seus desmandos. Não é mais o caso. A economia estagnou, a inflação ameaça disparar e nós descobrimos que o sonho do Brasil potência que acalentávamos não passou disso mesmo: foi apenas um sonho, mais um em nossa atribulada vida.

Agora, depois de todas essas barbaridades, um novo ciclo, que é a antítese do atual, se apresenta no horizonte, com Eduardo Campos, moralmente avalizado por Marina Silva. É o avesso do que temos visto, ao menos nos últimos dez anos

Por menos que se queira, Eduardo e Marina representam, sim, um alento de renovação na política brasileira. Ela é evangélica e intransigente defensora da preservação das matas e do "povo dos bosques", de acordo com suas próprias palavras. Seu modo de se exprimir trai uma espécie de ingenuidade rara de se ver. E indica também as suas convicções. Ele, por sua vez, traz a fama de excelente administrador.

Falta-nos saber se Eduardo Campos é, como Bayard, un chevalier sans peur et sans reproche (um cavaleiro sem medo e sem jaça, em tradução livre). Mas agora não nos cabe sequer desistir. A pior da renúncias, sem dúvida, é a renúncia à esperança.

*João Mellão Neto é jornalista, foi deputado, secretário e ministro de Estado.

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