China e Doha, dois aniversários

A maior potência comercial do mundo, a China, com exportações de US$ 1,2 trilhão em 2009 e superávit de US$ 200 bilhões, completa dez anos de acesso à OMC sob forte pressão para reformar sua estratégia de crescimento. O país teve dez anos para se ajustar plenamente às normas internacionais e, de modo geral, tem respeitado os compromissos, segundo o diretor-geral da instituição, Pascal Lamy. "Como ocorre com outros membros, há momentos de hesitação, de dúvida. Ninguém tem a cara completamente limpa na OMC", acrescentou. A avaliação de Lamy pode ser correta em linhas gerais, mas a China continua sendo, sob vários aspectos, um caso muito especial e desafiador para a maioria de seus parceiros.

, O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2011 | 00h00

Não por acaso, o secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, propõe como prioridade para o G-20, formado pelas maiores economias desenvolvidas e emergentes, a discussão do desequilíbrio comercial entre China e EUA. A questão é proposta em termos mais diplomáticos e gerais, mas de fato o assunto é esse mesmo e interessa a todo o mundo. A questão mais complicada continua sendo a política chinesa de câmbio, um velho pesadelo para os demais participantes do comércio internacional.

As autoridades chinesas mantêm o yuan subvalorizado há muitos anos, e há muitos anos são pressionadas para deixar a moeda flutuar. Prometeram em 2005 adotar uma política mais flexível, mas o resultado foi irrisório. Em 2008, a crise econômica precipitou a depreciação do dólar, mas a relação entre a moeda americana e a chinesa pouco mudou. Pequim simplesmente atrelou o yuan à moeda dos EUA e as duas passaram a se mover em conjunto.

Para o Brasil e muitos outros países foi um duplo desastre. Seus industriais passaram a sofrer as consequências da depreciação simultânea do dólar, usado na maior parte das transações, e do yuan.

O descompasso entre o consumo brasileiro e a demanda geral nas economias desenvolvidas teria sido suficiente para derrubar o superávit comercial brasileiro. Mas a deterioração da balança comercial do País teria sido bem menor, se não tivesse ocorrido o desajuste no valor das principais moedas. O problema ainda se agravou com a grande emissão de moeda pelo Fed, para estimular a reativação da economia.

A economia chinesa continua sujeita ao comando do Estado e a formação de preços, apesar da adoção de práticas capitalistas, continua longe de ser transparente. Também isto é um problema para os países concorrentes, mas o mais preocupante é o câmbio. Outros aspectos da economia chinesa têm mudado, mas não há perspectiva de alteração importante na administração do valor internacional da moeda, apesar das medidas tomadas contra a inflação.

Entre 2000 e 2008 as exportações chinesas cresceram de US$ 249,2 bilhões para US$ 1,43 trilhão. Em 2009, recuaram para US$ 1,202 trilhão, por causa da crise nos principais compradores dos produtos da China. As importações também cresceram, embora em ritmo mais lento, de US$ 225,1 bilhões em 2000 para US$ 1,13 trilhão em 2008, com pequeno recuo no ano seguinte. Apesar de todos os problemas e dos muitos e justificados protestos de seus parceiros, a China contribuiu poderosamente para a expansão do comércio global. Mas o resultado poderia ter sido bem melhor para todos, se as negociações globais de comércio tivessem sido concluídas.

O acesso da China à OMC foi anunciado e celebrado oficialmente em 2001. Ao mesmo tempo foi lançada com muita fanfarra, como convinha, a Rodada Doha, a mais ampla e mais ambiciosa tentativa de liberalização comercial conhecida na história. O comércio cresceu nos anos seguintes e a China teve uma participação importante nesse crescimento, mas a rodada emperrou e com isso enormes oportunidades de criação de riqueza e de aumento de bem-estar foram perdidas. Os problemas criados pela atual desordem cambial, embora consideráveis, são provavelmente menos danosos para a economia mundial do que o impasse na grande negociação.

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