Choque de custo ainda é fraco

Gastança e distribuição de benefícios fiscais estão entre as tolices mais fáceis e de maior popularidade. Se começar por aí, qualquer governo estará no rumo do desastre

O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2018 | 03h00

O Brasil chegou às eleições com o consumidor ainda poupado de grandes pressões inflacionárias, embora o dólar, o petróleo e o minério de ferro tenham empurrado fortemente para cima os custos industriais. Algum impacto foi observado nos preços do varejo e dos serviços, mas sem comprometer gravemente o padrão de consumo das famílias. Medido em porta de fábrica, o Índice de Preços ao Produtor (IPP) subiu em setembro 2,93%, praticamente o dobro da taxa anotada um ano antes, de 1,48%. Como o efeito nos preços finais tem sido moderado, ainda haverá bons argumentos para manter a taxa básica de juros em 6,50% até dezembro.

A próxima decisão deve ser anunciada na quarta-feira, depois da reunião do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (BC). A reunião seguinte, um mês e meio depois, ocorrerá antes da posse do presidente da República. Adiar uma alta de juros facilitará as primeiras ações do novo governo. Juros moderados deixarão espaço para a dinamização da economia e pouparão o Tesouro de um aumento de seus custos financeiros. 

Mas só terá sentido manter a política monetária nas condições de hoje se for muito baixo o risco de um surto inflacionário. Isso dependerá em boa parte das expectativas do mercado financeiro, do empresariado e dos consumidores. O presidente eleito terá um papel central na formação das expectativas, por suas palavras, atitudes e iniciativas desde a confirmação da vitória. Mais que as promessas de campanha, terão relevância os níveis de sensatez, de prudência, de realismo e de responsabilidade exibidos na preparação de seu governo.

Seus passos iniciais serão mais fáceis num ambiente de preços ao consumidor moderados. Será prudente acompanhar a formação de custos e as principais fontes de pressões. Por enquanto, a alta dos preços por atacado tem afetado limitadamente o orçamento familiar. Mas alguns números justificam a máxima atenção.

Os preços ao produtor, na medida mais ampla, subiram 14,02% neste ano e 18,20% nos 12 meses até setembro. As maiores altas ocorreram nas indústrias extrativas - 41,64% e 56,90% nesses períodos. Os preços das indústrias de transformação aumentaram 12,90% em nove meses e 16,73% nos 12 terminados em setembro.

Contrastes ficam mais claros quando se examinam as grandes categorias econômicas. Em 12 meses os preços cresceram 18,20% na indústria geral, 14,48% na de bens de capital, 26,14% na de bens intermediários e 6,54% na de bens de consumo. Em outras palavras, o encarecimento dos bens de consumo na porta de fábrica foi pouco mais de um terço do contabilizado para o total dos produtos industriais.

As famílias, portanto, têm sido poupadas duplamente. Em primeiro lugar, já na porta de fábrica os preços dos bens destinados a seu uso têm subido menos que os demais. Em segundo, entre a fábrica e o varejo os aumentos têm sido consideravelmente diluídos.

Em setembro, os preços medidos pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiram apenas 0,09%. Parte do impacto dos aumentos anotados em porta de fábrica deve ter ocorrido neste mês. Os números de outubro da inflação do varejo serão conhecidos nos próximos dias. O indicador usado como prévia, o IPCA-15, subiu 0,58% no mês passado, 3,83% no ano e 4,53% em 12 meses.

O maior impacto, de 0,30 ponto porcentual na formação da taxa de 0,58%, veio dos preços dos transportes. A segunda maior contribuição, de 0,11 ponto, foi a do custo de alimentos e bebidas. A alta do custo da alimentação ocorre depois de um longo período de preços acomodados ou até em queda.

A inflação continua muito próxima da meta e assim deve manter-se no próximo ano, o primeiro do novo mandato presidencial, se nenhuma catástrofe ocorrer e, principalmente, se nenhuma grande tolice for cometida pelo governo.

Gastança e distribuição de benefícios fiscais estão entre as tolices mais fáceis e de maior popularidade. Se começar por aí, qualquer governo estará no rumo do desastre.

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