Choques de culturas

A segunda metade do século 20 foi marcada por um forte conflito entre duas culturas: a humanista e a científica. Esse conflito foi desencadeado por uma conferência do químico e novelista C. P. Snow na Universidade de Cambridge, em 1959, em que expandiu a sua visão dos problemas formulados por um artigo publicado em 1956 num influente jornal inglês.

José Goldemberg *,

15 Abril 2013 | 02h11

O que Snow fez foi chamar a atenção de seus colegas para o fato de haver na Inglaterra na ocasião (e no mundo?) duas culturas que não se comunicavam: as humanidades (em especial Latim e Grego), de grande prestígio, que eram a base da educação da aristocracia inglesa, e as atividades científicas e tecnológicas - decisivas para levar a Inglaterra à vitória na 2.ª Guerra Mundial -, que eram menosprezadas. Em contraste, segundo Snow, os alemães e americanos preparavam seus cidadãos para as ciências, permitindo que eles competissem melhor na era dos grandes avanços científicos do século 20.

Snow argumentou que os cientistas eram considerados iletrados (analfabetos?) pelos humanistas, porque não liam Shakespeare, apesar de não ter nenhuma ideia do que é a Segunda Lei da Termodinâmica ou a Lei da Gravidade, que para os cientistas é a própria definição de analfabetismo científico. Na época um importante crítico literário atacou Snow como agente de relações públicas do estabelecimento científico inglês.

Alguns anos depois Snow amenizou suas críticas, mas o debate sobre o fosso entre as "duas culturas" marcou profundamente a segunda metade do século. Logo após, contudo, surgiu um novo e mais sério choque de culturas: desenvolvimentistas x ecologistas.

Para os desenvolvimentistas, o que interessa é melhorar as condições de vida da população, que só o crescimento econômico pode proporcionar. Este é o mundo do presente, dos investimentos e negócios, com sua ética própria de "retorno dos investimentos", cotação do dólar, exportações, construção de estradas e até corrupção, sem muita preocupação com o futuro. Essa visão casa bem com eleições frequentes, a cada quatro anos, e até com as promessas demagógicas necessárias para ser eleito.

Em contraste a visão dos ecologistas é a do longo prazo e de preocupações não só com a presente geração, mas com as gerações futuras. Essa visão ganhou grande impulso após os anos 1970, depois da Conferência de Estocolmo em 1972 que alertou os governos para as consequências do tipo de desenvolvimento predatório que caracterizou o século 20, baseado no consumo de combustíveis fósseis e no consumismo desenfreado. O que ela fez foi soar um sinal de alarme de que não poderíamos continuar num caminho que levaria ao esgotamento dos recursos naturais ou a níveis de poluição insustentáveis.

A crise do petróleo em 1973 - que foi erroneamente interpretada como o esgotamento das reservas, e não como manobra política dos países exportadores - só agravou essa visão pessimista do desenvolvimento. Como consequência, levou à adoção de dois princípios:

O do "poluidor pagador", que estabelece que o poluidor é responsável pela poluição que causa e deve pagar pelas consequências e medidas preventivas para evitá-la;

e o "princípio da precaução", que estabelece que não devem ser adotadas novas tecnologias sem uma avaliação das consequências que sua adoção pode acarretar.

Em maior ou menor grau, esses princípios foram adotados pela maioria dos países e estão incorporados na sua legislação. Mais ainda, grandes burocracias governamentais, como Ministérios de Meio Ambiente, foram criadas para fiscalizar sua aplicação.

No caso do Brasil, por exemplo, a Constituição, no artigo 225, estabelece que "todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações". Os adeptos extremados da visão desenvolvimentista argumentam que a visão dos ecologistas não é realista e impede na prática o desenvolvimento. Os mais moderados, contudo, reconhecem que um mundo em que a meta é o desenvolvimento a "qualquer custo" já passou e que as consequências predatórias desse tipo de desenvolvimento têm custos muito elevados.

O conflito dessas duas culturas lembra muito o debate provocado por Snow, só que agora o que está em jogo não são críticas literárias ou conflitos entre intelectuais, mas ações de governo, como construção de estradas, hidrelétricas, reatores nucleares, exploração de petróleo, mineração e desmatamento da Amazônia. Não há uma solução única para esses problemas: uma defesa extremada da preservação ambiental pode levar à parálise e até à perpetuação do subdesenvolvimento e da miséria. Já um desenvolvimento predatório pode levar a prejuízos sérios para as gerações futuras e até para a atual, como já se pode ver na poluição das grandes cidades, que ameaça a saúde.

O que se impõe é estabelecer uma ponte entre as duas culturas. Não se trata de fazer média ou uma conciliação em áreas em que ela não é possível, mas uma atitude realista que leve a um desenvolvimento sustentável que beneficie o conjunto da população, e não grupos de interesses e lobistas.

Diversas instituições internacionais, como o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), têm preparado relatórios detalhados mostrando que não há uma contradição fundamental entre desenvolvimento e proteção ambiental e que uma "economia verde" não só é possível, como também faz sentido econômico.

Dentro do nosso país, inúmeros cientistas têm tentado mostrar, em casos específicos, como estimular o desenvolvimento sem danos irreversíveis à natureza, que levem ao esgotamento dos recursos naturais.

O conflito entre as "duas culturas" não é insolúvel.

* José Goldemberg é professor emérito da USP.
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