Chorando sobre o leite derramado

Duas das mais importantes premiações literárias do País - o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (CBL), e o Prêmio Portugal Telecom - estão sendo objeto de contestação e ironias, no mundo editorial e na mídia, pelo fato de terem coincidido, este ano, na atribuição da láurea mais importante a uma mesma obra: Leite Derramado, de Chico Buarque de Holanda, editado pela Companhia das Letras. O que se insinua, quando não claramente se denuncia, é a existência de um jogo de cartas marcadas em benefício de interesses que nunca são claramente explicitados pelos insatisfeitos. Merece alguma reflexão.

A.P. Quartim de Moraes, O Estado de S.Paulo

23 Novembro 2010 | 00h00

Antes de mais nada, é preciso atentar para o óbvio: o julgamento de obras de criação artística, de qualquer natureza, está sempre sujeito a enorme componente de subjetividade, seja porque não há cânones absolutos e definitivos, seja porque cada pessoa enxerga a obra de arte com seus próprios olhos, através dos filtros de seus valores e de sua sensibilidade. Além disso, todo julgamento dessa natureza, por mais justo e objetivo a que se proponha, está sempre suscetível de ser de alguma maneira influenciado por um contexto mais amplo no qual o ato de julgar se insere. Para ser mais explícito: nenhuma premiação artística deixa de ser, umas mais, outras menos, também, "política". Nem o Prêmio Nobel de Literatura escapa disso.

O Jabuti e o Portugal Telecom são duas premiações muito diversas quanto ao foco principal. O prêmio da Câmara Brasileira do Livro, que teve este ano sua 52.ª edição, abrange um espectro amplo da produção editorial brasileira, contemplando 21 categorias. E o julgamento das obras inscritas em cada uma delas é feito em duas etapas por um grupo de três pessoas. O Jabuti ainda confere, pela 20.ª vez desde 1991, quando o livreiro José Luiz Goldfarb assumiu as funções de curador, dois prêmios Livro do Ano, nas categorias ficção e não ficção, votados por todos os associados da CBL e de outras entidades, entre elas o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel), com sede no Rio de Janeiro. Cada vencedor do Livro do Ano recebe um prêmio de R$ 30 mil. Em 2010 foi concedida também, pela primeira vez, a láurea de melhor livro Voto Popular, em eleição feita pela internet.

O Portugal Telecom, por sua vez, está na oitava edição e elege exclusivamente obras literárias nas categorias romance, conto, poesia, crônica, dramaturgia e autobiografia, escritas originalmente em língua portuguesa. Depois de duas fases de seleção, classifica os três premiados de uma lista de dez finalistas. Os classificados recebem, respectivamente, R$ 100 mil, R$ 35 mil e R$ 15 mil.

Ambos os certames se apoiam no trabalho de seleção e classificação de um amplo corpo de jurados de irrecusável idoneidade recrutados nos meios acadêmicos, literários e editoriais e adstritos a normas de procedimento tão objetivas quanto possível, claramente dispostas em regulamentos minuciosos.

A polêmica criada este ano no mundo do livro em torno desses dois prêmios teria permanecido no nível de mais uma fofoca com repercussão na mídia se o maior grupo editorial brasileiro, dono de um dos mais respeitáveis catálogos do País, não tivesse contestado formalmente a premiação do Jabuti e anunciado que, no ano que vem, está fora. Sergio Machado, publisher da Record, enviou à CBL carta em que manifesta sua "discordância com os critérios de atribuição do Livro do Ano de ficção e não ficção. Tais critérios não só permitem, como têm sistematicamente conduzido à premiação de obras que não foram agraciadas em seleções prévias do próprio prêmio como as melhores em suas categorias".

Tudo porque um dos cinco livros do grupo editorial que levaram o Jabuti este ano, Se eu Fechar os Olhos Agora, do jornalista Edney Silvestre, classificado em primeiro lugar na categoria Melhor Romance, perdeu o Livro do Ano/Ficção para a obra classificada em segundo lugar na mesma categoria, exatamente Leite Derramado. Aparentemente, um contrassenso. Mas que tem uma explicação óbvia: os três classificados em cada categoria são escolhidos pelos respectivos jurados. Já o Livro do Ano resulta da votação de um colégio, como já dito, muito mais amplo. Essa votação pode ser feita em qualquer um dos três primeiros colocados das categorias cabíveis (cinco para ficção e 11 para não ficção). É perfeitamente possível, portanto, a existência de discrepâncias. Para mudar isso o regulamento do prêmio teria de ser alterado, por exemplo, para estabelecer que só concorreriam a Livro do Ano as obras classificadas em primeiro lugar em cada uma das categorias cabíveis. É até uma ideia sensata, mas não é assim que a coisa funciona. E todos os interessados sabem disso.

De resto, tanto Chico Buarque de Holanda quanto sua editora, a Companhia das Letras, são notórios colecionadores de prêmios literários. Dos quatro livros que escreveu, Chico já tinha tido dois, Estorvo, em 1992, e Budapeste, em 2004, eleitos Livro do Ano/Ficção. Não chega a ser surpresa, portanto, que tenha agora emplacado um terceiro, até porque repetiu a dose no Portugal Telecom.

A Companhia das Letras, por sua vez, em 20 anos de Livro do Ano, ganhou 13 vezes, oito em ficção e cinco em não ficção. Sua participação no Portugal Telecom é ainda mais expressiva: em oito anos e 25 premiações, foi laureada nove vezes, seis das quais em primeiro lugar. Isso não vem de graça. A Companhia das Letras é a grande editora comercial brasileira que melhor sabe equilibrar a qualidade de conteúdo com o apelo comercial de seu catálogo. Seu prestígio - eventualmente aliado à celebridade de um Chico - lhe confere, é claro, forte, natural e legítima influência política em certames literários.

E aos inconformados só resta chorar sobre o leite derramado.

JORNALISTA, É EDITOR ASSOCIADO DA GLOBAL EDITORA. E-MAIL: APQUARTIM@DUALTEC.COM.BR

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