Chove só na Petrobrás

A enxurrada de 39 ministérios do governo federal não levou em conta um detalhe exponencial nestes tempos secos, de água tão escassa que molha apenas a Petrobrás - "está faltando um", como na velha marchinha de carnaval. Sim, falta criar o Ministério das Chuvas e entregá-lo diretamente ao PT ou à base alugada do governo. Talvez ao PMDB, especialista em sugar o que seja ou de onde for, e que com essas invejáveis habilidades fará chover até em terreno alagado.

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

11 Fevereiro 2015 | 02h06

Com o Ministério das Chuvas tudo estaria sob controle estatal! Chuvas federais, estaduais e municipais cairiam segundo as necessidades de cada região. Terminaria o absurdo de estiagem brutal no Sudeste e chuva intensa no Sul. O Tietê teria as proporções do Amazonas, com o papel que a geologia devia ter-lhe dado. A Cantareira seria um lago de causar inveja a Itaipu. E a Billings seria como Belo Monte será.

Uma minuciosa MP (que iria chamar-se "medida providencial", não "provisória") definiria funções e resolveria tudo. Entre nós tudo se resolve no papel. O que está na lei está na lei e basta - não precisa ser real nem ser cumprido!

A presidente Dilma ampliaria a unidade ideológica do governo e poderia escolher mais um ministro entre políticos processados na Justiça ou, pelo menos, sob suspeita ou com algum prontuário policial, mesmo incipiente, se não pudesse ser frondoso. Assim, não estariam tão em minoria os atuais ministros Eliseu Padilha, Eduardo Braga, Edinho Araújo, Gilberto Kassab, Hélder Barbalho, Antônio Carlos Rodrigues, Kátia Abreu e Manoel Dias, todos da base alugada e todos processados ou acusados, alguns condenados por improbidade ou algo similar, mas que, em 39, são apenas oito. E a administração teria ritmo firme, rumo à felicidade geral e à estabilidade pluviométrica.

Dispensaríamos a previsão climática dos satélites da Nasa, economizando dólares. O ministro das Chuvas pediria por empréstimo ao PP (a chamar-se Partido Paulomalufista) os serviços do Paulo Roberto Costa, que, hábil ourives de joias raras, quando diretor da Petrobrás acertou propinas em ouro maciço e hoje - estando "preso", mas solto - pode trabalhar em casa, pois é delator premiado após ter sido delatado.

E as chuvas cairiam com precisão de relógio suíço. Sem estardalhaço, sigilosas como as contas nos bancos também suíços, por onde passaram aqueles 200 ou 400 milhões (ou mais) roubados da Petrobrás, desde 2003, por um conjunto de grandes empresas para serem distribuídos a gente do PT, PMDB e PP. E os nacos a "nanicos" também...

Já que os pingos grossos começam nos tempos de Lula da Silva, tudo seria feito com o "sim" do ex-presidente, pois água em tempo seco só a experiência pode tornear.

Com chuvas regulamentadas, desapareceria a secura dos que tentam privatizar a Petrobrás, comendo-a em fatias como torta cremosa, ao agirem dentro dela como donos de um imenso e rico armazém de secos e molhados liquidando as iguarias.

A substituição de Graça Foster por Aldemir Bendine na presidência da Petrobrás, porém, leva a indagar sobre se o novo será inédito e diferente ou tão só vai fazer o velho maquiar de juvenil o antigo rosto. Até aqui Graça Foster aparece a salvo do escândalo. Ela e Ildo Sauer, seu antecessor na Diretoria de Gás, são os únicos não apontados na teia de subornos tricotados por empreiteiras de obras e grandes fornecedoras para chegar àquilo que um ex-gerente (em delação premiada) chamou de "corrupção endêmica e institucionalizada" na empresa. Mesmo assim, ela saiu.

Seu substituto vai assumir com a experiência de dirigir o Banco do Brasil desde os tempos de Lula da Silva, em 2009. Especialista em finanças, entrou no banco aos 15 anos de idade e, passo a passo, chegou aonde chegou. A crise da Petrobrás nasceu da balbúrdia financeira e, por essa óptica, Bendine é o nome exato para o instante exato.

A presidente chama-o de "Bendi", talvez apenas uma apócope, não uma intimidade, mas que revela confiança. Ele dirigiu a área de cartões do banco à mesma época em que outro diretor, Henrique Pizzolato, terminava de se envolver com o desvio de entre R$ 40 milhões a R$ 70 milhões do Fundo Visanet para atender aos subornos do "mensalão". Por isso, Pizzolato foi condenado à prisão pelo Supremo e, também por isso, fugiu para a Itália.

Alguma vez, porém, ouvimos alguma explicação ou sequer menção de "Bendi" sobre os multimilionários desvios no banco que presidia?

Para que não se pense que o correto Bendine seja mudo, mesmo tendo ouvido atento, não seria a hora de que detalhasse como o solitário Pizzolato logrou enganar o banco inteiro e desviar milhões para a corrupção do "mensalão"?

Seria mais higiênico ver essa maré absurda através da ironia, sem observar que o absurdo se enraíza cada vez mais. Sim, pois, pelo menos, evitaríamos o infarto provocado pelo choque! No gigantesco assalto à Petrobrás, o conluio entre grandes empresas, tecnocratas e políticos não desvenda apenas a trama nauseabunda num setor. Mostra, isso sim, a transformação do sistema partidário em gazua para abrir cofres alheios. O assalto comandado pelo PT, PMDB e PP é a modificação ampliada do roubo cometido por gente do PSDB no Metrô em São Paulo, antes ou depois. (A integridade de Mário Covas não está em jogo - quem o conheceu segue confiando nele -, mas é brutal e irônico que o grande denunciado integre, hoje, o Tribunal de Contas.)

Em qualquer dos casos, os assaltantes cometeram um erro de cálculo: raciocinaram como nos tempos da ditadura, quando a corrupção era ainda mais subterrânea que a tortura. Na época, a Polícia Federal servia à repressão política, o Ministério Público não tinha independência, a subserviência dominava o Poder Judiciário e a imprensa perdera a função de ser livre.

Hoje somos todos "outra gente". A chuva cai sobre a Petrobrás, mas a tempestade é geral!

JORNALISTA E ESCRITOR,

PRÊMIO JABUTI ANOS 2000 E 2005

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