Ciência e seus usos para a paz e para a guerra

Trump quer associar seu nome à chegada do homem a Marte, como Kennedy e a ida à Lua

*José Goldemberg, O Estado de S. Paulo

16 Janeiro 2017 | 03h02

O que cientistas (e filósofos) fazem é tentar entender a natureza e procurar as causas do que acontece em torno de nós. Frequentemente suas descobertas têm consequências práticas importantes, que abalam o sistema social em que vivem ou abrem caminho para o desenvolvimento econômico.

Um dos melhores exemplos disso é o que ocorreu com Galileu, um frade que no século 16 mostrou claramente que a Terra não era o centro do universo, mas gira à volta do Sol e em torno de si mesma. Galileu não tinha nenhuma outra motivação a não ser entender o movimento, como já havia feito ao estudar a queda de corpos da Torre de Pisa.

Contudo as autoridades eclesiásticas da época perceberam logo quão perigosas eram essas ideias, porque abalariam a visão do mundo vigente na época e sua posição de comando na sociedade. Então, trataram logo de silenciar Galileu, sob a ameaça de tortura.

Outro exemplo é dado pelo que aconteceu com Arquimedes, que fez descobertas científicas importantes no século 2.º a. C., que pôs seus conhecimentos e talentos a serviço do rei de Siracusa, na Sicília, atacada, na época, por uma frota de navios romanos. Arquimedes usou espelhos para concentrar a luz do Sol sobre os navios dos atacantes e incendiá-los, mas não foi o suficiente para impedir a queda de Siracusa. Ele foi morto por um soldado romano que o tomou por um combatente comum. Pelo que se sabe, contudo, o comandante romano repreendeu severamente o soldado, pela perda da oportunidade de aproveitar os conhecimentos de Arquimedes para os interesses de Roma.

Ao longo da História, incidentes como esses se repetiram. Um dos mais recentes foi o uso que o governo americano fez de Wernher von Braun, cientista alemão que desenvolveu os foguetes V-2, que infernizaram a vida dos ingleses no fim da 2.ª Guerra Mundial (1939-1945). Após a guerra Von Braun foi recrutado para desenvolver foguetes para os Estados Unidos e iniciar a corrida espacial. Essa “corrida” é frequentemente apresentada em cores românticas como destinada à “conquista do espaço” – comparada com a descoberta da América, no século 15.

Como tal, tratava-se de um programa militar cujos primeiros rounds foram vencidos pela União Soviética, que lançou o primeiro satélite artificial da Terra, o Sputnik I, em 1957, e o primeiro cosmonauta que viajou no espaço, Yuri Gagarin, a bordo da Vostok I, em 12 de abril de 1961.

A batalha seguinte foi o lançamento de uma expedição à Lua, que os americanos venceram graças ao empenho do presidente John Kennedy. Colocar um homem no espaço ou na Lua não teve grandes consequências práticas ou econômicas, apenas prestígio político. O importante nesses programas foi desenvolver foguetes intercontinentais que podem transportar bombas atômicas a longas distâncias e poderiam aniquilar os países envolvidos no caso de uma guerra nuclear.

Agora, com a eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos, o que vemos é o nascimento de um novo desafio: enviar uma missão humana a Marte. A “conquista” de Marte é apresentada, novamente, como a “nova fronteira” que excita a curiosidade dos homens e permitirá salvar a humanidade caso o nosso planeta se torne inabitável ou venha a ser destruído por um meteoro.

Capitalistas americanos já estão vendendo viagens para Marte a milionários extravagantes, da mesma forma que outros mistificadores vendem armazenamento criogênico de pessoas que morreram e poderiam, talvez, “renascer” no futuro, quando a cura das doenças que provocaram sua morte tiver sido descoberta.

É até compreensível que empreendedores como Elon Musk, um empresário criativo e controverso, desejem fazer voos comerciais a Marte, mas é de fato lamentável que até cientistas como Stephen Hawking alimentem essas ideias. Em recente palestra do Museu de Ciências de Londres, Hawking disse que a exploração espacial representa um “seguro de vida” para a humanidade, que poderia sobreviver colonizando outros planetas para o caso de o nosso vir a desaparecer.

“Colonizar Marte” parte de premissas erradas e até inquietantes. O argumento de que uma colônia humana em Marte salvaria a nossa civilização de uma colisão com um meteoro não se sustenta. A última dessas colisões aconteceu 70 milhões de anos atrás e deu origem ao fim dos dinossauros, e não ao fim do nosso planeta. Nada garante que isso não venha a acontecer antes em Marte do que na Terra. Além disso, nossa civilização existe há apenas 10 mil anos e fazer planos para o que pode acontecer nos próximos milhões de anos é, no mínimo, especulativo.

Na realidade o que parece estar por trás disso é que o presidente Donald Trump deseja dar fins exclusivamente militares ao programa espacial americano conduzido pela Nasa, abandonando os projetos dessa agência que são dedicados aos problemas de mudanças climáticas e a usos civis, como GPS, telecomunicações e outros. As missões a Marte têm esse aspecto militar claro.

Além do mais, para Trump, associar seu nome à chegada do homem a Marte, como o de Kennedy ficou vinculado à conquista da Lua, parece adequar-se ao seu temperamento.

Marte, como a Lua e outros corpos celestes investigados por sondas espaciais, são lugares muito inóspitos, com características piores que o Deserto de Atacama, no norte do Chile, e encontrar neles minerais e outros produtos que possam ter interesse real na Terra é uma possibilidade bem remota. Não parece haver nenhum planeta ou asteroide coberto de diamantes. E há ainda enormes oportunidades para utilizar os recursos de que dispomos para preservar a qualidade ambiental da Terra, evitando o aquecimento global e outros danos que a ação do homem está causando à natureza.

*Presidente da Fundação de Amparo À Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)

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