Clima confuso

A participação do Brasil na Cúpula do Clima das Nações Unidas, ocorrida em Nova York no dia 23, é uma boa mostra de como o Palácio do Planalto lida com as questões internacionais.

O Estado de S.Paulo

26 Setembro 2014 | 02h06

A presidente Dilma Rousseff tem sérias dificuldades em distinguir o âmbito nacional do internacional. Não tira mais o chapéu de candidata. E os quatro anos no poder parece que não foram suficientes para fazê-la compreender que o cargo de presidente da República exige seriedade, circunspecção, estudos e aplicação - ao contrário, ela continua atuando como uma debutante inexperiente e desajeitada.

Seu discurso na Cúpula esteve pautado pelo horizonte temporal do PT no poder - a matraca dos 12 anos -, o que, seguramente, não deve ter feito muito sentido aos ouvidos da plateia. "Nos últimos 12 anos, temos tido resultados extraordinários. (...) O Brasil, portanto, não anuncia promessas. Mostra resultados." Mais adiante, a uma plateia cada vez menos interessada - não é fenômeno restrito ao Brasil o desinteresse por tudo aquilo que soe a programa eleitoral gratuito -, a candidata Dilma recarregou a artilharia eleitoreira: "Tamanho crescimento da produtividade - referia-se, como não podia deixar de ser, às safras dos últimos 12 anos - só é possível com muita pesquisa e inovação, muito investimento e intenso apoio do governo federal".

Não é segredo para ninguém que a competitividade do agronegócio brasileiro e o consequente aumento de produtividade não se baseiam no "intenso apoio do governo federal". Baseiam-se na pesquisa e inovação da Embrapa - cuja existência, empenho e eficiência são muito anteriores ao PT sonhar em chegar ao poder - e no empreendedorismo do campo brasileiro, que não diminuiu o seu ímpeto mesmo diante de um governo que menospreza a iniciativa privada. É daí que vieram os resultados.

Em entrevista após o discurso, Dilma foi questionada a respeito do recente aumento do desmatamento da floresta amazônica. Atuando mais uma vez como se estivesse num debate eleitoral - e como se fosse legítimo fugir da questão tratando eufemisticamente os fatos -, disse apenas: "Agora deu um aumentozinho, em 2014 vamos continuar reduzindo". De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o "aumentozinho" foi de 29%: a taxa de desmatamento de agosto de 2012 a julho de 2013 (5.891 km²) cresceu 29% em relação ao período anterior.

Mas não foi apenas a fala de Dilma que fez o Brasil destoar na Cúpula do Clima das Nações Unidas. Por um motivo ainda não bem explicado - tem-se atualmente no País um governo que, com a sua falta de comunicação linear, se esforça para que em tudo pareça haver motivos ocultos -, o governo brasileiro não assinou a Declaração de Nova York sobre Florestas, na qual outros 32 países afirmaram a disposição de reduzir pela metade o desmatamento até 2020 e zerá-lo até 2030. O texto pedia também o esforço global para restaurar mais de 350 milhões de hectares de florestas, o que, segundo o documento, "poderia trazer benefícios climáticos consideráveis e diminuir a pressão sobre as florestas primárias".

O governo brasileiro não assinou o compromisso e se justificou dizendo que "não foi convidado a se engajar no processo de preparação" da declaração. No entanto, de acordo com Charles McNeill, conselheiro de política ambiental do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (Pnud), "houve esforços para chegar às pessoas do governo brasileiro, mas não houve resposta".

Segundo a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, o governo brasileiro não assinou a declaração porque seu conteúdo colidiria com as leis relativas ao desmatamento na Amazônia. Se essa for de fato a razão pela qual o governo brasileiro não assinou a Declaração de Nova York, vislumbra-se mais uma confusão do governo, como se no País houvesse leis que obrigassem a desmatar - pois só assim a declaração feriria a legislação brasileira.

Ou será que, às vésperas das eleições, o governo da candidata Dilma foge de toda e qualquer decisão que possa gerar algum ruído eleitoral?

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